Comédias de Sempre

Textos novos toda segunda e sexta as 18:30h!

14 de out de 2019

Ai, ai, ai, I'm a little Butterfly!


   Eu precisava falar um pouco sobre isso. Eu finalmente descobri uma das músicas mais icônicas da minha infância e da infância de todos nós, e eu tenho que confessar que agora tenho sentimentos conflituosos sobre ela!
   O nome da música é "Butterfly". A primeira lembrança que a gente tem dessa música é completamente chiada parecendo que foi gravada naqueles microfones de brinquedo e que a gente ouvia realmente em brinquedos, principalmente naqueles celularsinhos antigos de plástico que vieram de algum buraco no meio da China. Qualquer tecla que você apertasse dele, tocava essa música, e ela divide opiniões porque, depois do "Ai, ai, ai" cada um entendia uma coisa do que as cantoras falavam!

   "Ai, ai, ai, Emilio não tem pai!"
   "Ai, ai, ai, vamo comer Popeye!"
   "Ai, ai, ai, tchuin tchuin tchun clain!" (Quando o celular era da Branca de Neve!)
   "Ai, ai, ai, rapariga do papai!" (Pesado! rs)
   "Ai, ai, ai, otaku não é senpai!"
   "Ai, ai, ai, a amante do meu pai!"
   "Ai, ai, ai, Bolsonaro nunca mais!" (Tá bom, essa não! rs)

   O nome da banda que tocava essa música é Smile.DK, sendo que "Smile" significa "Sorriso" e DK significa Donkey Kong. Ou seja, o nome da banda é basicamente isso:


   Eu queria também fazer uma rápida menção ao melhor frame do clipe da música, que revela exatamente a reação quando as drogas (ou a falta delas) começa a fazer efeito e você começa a ver coisas na sua frente que não deveriam estar lá, e aí, você sabe que precisa urgente correr atrás de se tratar:


   Agora, o que me deixa com sentimentos conflituosos sobre essa música é imaginar que eu passei metade da infância com esse celularsinho de brinquedo na mão me sentindo muito legal e descolado, enquanto ele berrava para todo mundo que "Ai, ai, ai, sou uma linda borboleta! Cadê meu samurai?". Minha carteirinha de criança hétero em colapso! Vocês conseguem entender o que é isso? Minha infância foi uma mentira, não tem nada de infantil nessa parada! O que tem é umas drogas pesadas! Não estou lidando bem agora!

   "Ai, ai, ai, da minha vida não sei mais!"

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11 de out de 2019

Não vai ter o Especial do Roberto Carlos esse Ano!


   EU ESTOU ARRASADO! EU ESTOU EM PRANTOS! EU SIMPLESMENTE NÃO CONSIGO ACREDITAR! O FUTURO JÁ COMEÇOU E ELE É NEGRO! Tá bom, to exagerando, não é para tanto, mas é daquelas notícias que a gente para e fica atônito no ar, porque era uma coisa que todo mundo no Brasil tinha quase mais certeza do que a morte, e agora, é como se todo o universo começasse a se destruir diante dos nossos olhos! Se nem o especial do Roberto Carlos é algo em que a gente pode esperar, no que mais se pode acreditar na vida? O que podem fazer agora para quebrar o nosso coração?
   Em vez disso, sem ter uma idéia melhor, a Globo vai exibir imagens de uma turnê que Roberto fez esse ano em alguns países da Europa, talvez para economizar dinheiro, apesar de eu achar que não vale a pena quebrar os nossos corações para economizar dinheiro!
   E a grande pergunta é, se isso voltar a acontecer, o que a Globo deve fazer? Se os anos se passarem e Roberto não puder mais  fazer o especial, o que vão fazer? Quem vão colocar no lugar para as próximas gerações? Em quem mais vamos acreditar tanto quanto acreditamos na morte?
   Uma das opções é a Suzana Vieira que todos sabemos o quanto além de excelente atriz é uma cantora talentosíssima (Alguém lembra dela cantando "Per Amore"? Uma hora disso com certeza é botar o futuro para começar!).
   Ou então, para ser ainda mais legal, uma hora do Faustão cantando o rap do Ovo, o que de quebra ainda daria um emprego para o Sérgio Mallandro! Imaginem, uma hora de um dos maiores clássicos da história da rede globo e, é claro, como não dizer, um dos maiores criadores de memes da emissora! IA PEGAR FOGO, BICHO!
   De repente, se o SBT topar, a gente coloca também a Rachel Sherazade cantando os maiores sucessos do Rock, como no dia em que cantou Iron Maiden no The Noite, para estender uma hora trazemos também um Pink Floyd, Mettalica, Kiss, até um Queen na voz dela para garantir nossa uma hora de alegria!
   Ou então, se a gente for mais ousado, podemos juntar os três e ainda criar uma nova versão de Rock com o rap do ovo no gran finale, que com certeza, é a melhor, mais criativa e sensata maneira de desejar feliz natal para as pessoas e deixar o Brasil inteiro feliz!

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7 de out de 2019

Pete #20: Pete e a Parede


   Um belo dia atravessando o corredor do apartamento, vi o Pete, nessa época já com sete anos, sentado quietinho no corredor. Me afastei e me escondi em um dos quartos como se estivesse num jogo de tiro invadindo a área inimiga e visse um deles no corredor. Quando foi a última vez que vi o Pete quietinho no chão daquele jeito? Não, tinha que ter acontecido alguma coisa. Será que eu tinha colocado ele de castigo e não me lembrava? Se fosse isso, eu não podia nem olhar para ele ou estaria me desautorizando! Ele ia fazer aquela carinha para tentar me fazer ter dó e deixar ele sair, e eu não podia ceder. Mas tinha um problema ainda maior. E se ele estivesse passando mau, e por isso estivesse quietinho? Nesse caso eu tinha obrigação de conversar e dar atenção a ele!
   Assim, eu estava refém do meu próprio compromisso com ele, e com a ansiedade atacando. Tentei ir, mas minha mão segurou no batente da porta me impedindo de ir. Ele tinha feito alguma coisa, tinha que ter feito alguma coisa, era o feitio dele. O que é que faria ele ficar quietinho, paradinho assim no corredor se não um belo castigo? Certo, nem isso, nem mesmo isso faria o Pete ficar parado daquele jeito! Eu já estava há quase quatro anos naquele apartamento, sabia que nem isso! Ainda assim, se eu tomasse a decisão errada com certeza ia jogar minha autoridade para o espaço e seria um péssimo tio babá!
   Olhei disfarçadamente. Ele ainda estava lá, olhando para a parede. Se eu tivesse colocado ele de castigo e por alguma razão, algum milagre divino dos céus ele resolvesse respeitar isso, o pior que podia fazer era tira-lo, certo? Tentei puxar pela memória, mas realmente não me lembrava se tinha ou não feito isso. Sem muita certeza. Até que então, depois de muito pensar, tive uma idéia. Uma reação neutra, que valeria para qualquer situação possível: Passei pelo corredor e olhei rapidamente, de canto de olho.
   -Você pode sair, se quiser!
   -Vieram! - Gritou.
   -Que?
   Quando vi, um grupo de formiguinhas subia por aquela parede enquanto Pete sorria de orelha a orelha as observando.
   -Você... Ficou aí esperando para ver as formigas até agora?
   -É, elas iam sair a qualquer momento!
   Eu fiquei meia hora escondido no quarto achando que ia ser um péssimo babá se tomasse a decisão errada, tive um ataque de ansiedade, enquanto ele esperava para ver formiguinhas saindo da rachadura da parede. Qualquer dia Pete acabaria me obrigando a beber!

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4 de out de 2019

Um tio perdido na Creche #04: Crises no Maternal


   O lado bom de trabalhar na creche onde eu estava é que ali nós tínhamos contato e éramos responsáveis por crianças de todas as idades entre dois e meio até cinco anos, antes de eles irem para a escola. E com os de dois anos a gente tinha missão árdua de ensiná-los a controlar o esfincter (o músculo que segura o cocô e o xixi) a fim de que a criança chegue no que podemos chamar de conquista da liberdade, aquilo que identifica os carinhas mais legais do maternal: O desfralde! Era a independência, a liberdade de poder peidar sem nada voltar para você! Mas torná-los, como eu disse, os garotinhos mais legais do maternal incluía que a gente os ensinasse a pedir para ir no banheiro, a dizer "Tio, xixi!", e então nós levávamos.
   O mais engraçado: O Giulio se aproximava da Carla, olhava para ela como quem não quer nada e... Baixava as calças.
   -Vai nem pagar o jantar? - Não resisti a dizer da primeira vez que aconteceu. Nessa, a Carla levou alguns segundos para se recompor.
   -Você quer fazer xixi?
   Fez que sim com a cabeça. E o mais divertido é que isso se repetiu por bastante tempo em loop, mesmo a gente dizendo todos os dias para os pequenos dizerem "Tio, xixi!", e ele falava, pouco mas falava. Aí pronto! Eu não ganhava o suficiente para ter que assistir o semi striptease do nudistinha, mas a gente tinha de insistir para ele aprender a pedir, o que levou tempo! Sim, pode rir da minha desgraça, você já entrou nesse blog para isso, né?

   * * *
   -Nossa, ta muito gostoso!
   Eu me esforçava, enquanto estava com as crianças na areia, para fingir a maior empolgação possível com os bolos e tortas que eles faziam. Eles inventavam os sabores e me provar e dizer se ficou bom, e eu não tinha a menor coragem de estragar a fantasia deles e fazer a Pala Carosella: "Hum, é um prato interessante, eu gosto da textura arenosa e a cobertura bem granulada, mas acho que hoje não!". Então, sempre dizia a mesma coisa:
   -Nossa, que gostoso!
   As vezes até pedia para fazerem de outros sabores, mas na tringentésima (finjam que esse número existe!) vez em diante, a coisa começava a ficar meio tediosa. Numa dessas era o Bill, de dois anos e meio, quem estava fazendo os bolos para mim. E se fossem bolos de verdade eu já poderia me fantasiar de Mamma Bruschetta no carnaval naquela altura, só com os infinitos bolos do Bill. Foi quando o Giulio se aproximou, e eu aproveitei.
   -Bill, dá para o Giulio provar o seu bolo agora!
   Ele então obedece e dá a pazinha com areia para o Giulio. Eu achei que Giulio estivesse ligado nas paradas do high society do maternal e estivesse entendendo a brincadeira. Pensei cedo demais. Ele me enfia a areia na boca e engole antes que eu possa gritar para parar. E eu tentei. Deus sabe que eu tentei mas já era tarde. Bem, por sorte não aconteceu absolutamente nada com ele e vai ficar bem. Ou pelo menos, ninguém nunca vai saber que foi minha culpa!
   Agora, a minha revolta com isso, é que ele não pensou duas vezes para meter a boca na areia como se estivesse peregrinando há dias no deserto e tivesse realmente visto ali uma miragem de comida, mas na hora de comer mesmo era uma vida! E hoje eu me pergunto se era a gente ou esse garoto é que era underground demais para os nossos padrões!

30 de set de 2019

Se eu fosse um Assistente Virtual


   E eis que eu me pego lendo sobre assistentes virtuais que as grandes empresas de tecnologia lançaram, como Alexa da Amazon, Siri da Apple, Cortana da Microsoft e etc, softwares de celular ou aparelhos que conversam com o usuário ou mesmo realizam funções com comando de voz, que todos nós sabemos que é o primeiro passo para a Skynet! Alias, acho que a única coisa que pode salvar a humanidade é justamente se os gatos lutarem contra os robôs para decidir quem vai escravizar a raça humana, se o Gataggedom ou a Skynet, e todos eles se matarem uns aos outros no processo, deixando o planeta para a gente por mais uma era! E por sinal eu preciso me lembrar de escrever um texto falando mais sobre isso!
   Mas o negócio é que, já que a humanidade realmente está disposta a cavar o próprio buraco e está construindo o enorme consolo de metal que vai terminar na bunda da humanidade com isso de deixar os robôs inteligentes e capazes de aprender, então pelo menos podemos pensar que as assistentes eletrônicas poderiam pelo menos, para o nosso próprio bem, ser um pouco mais sinceros conosco, ainda que isso doa as vezes. Alguma coisa mais ou menos assim:

   Usuário: Maciel, temperatura!
   Maciel: 25 graus com tempo ensolarado lá fora. Sai de casa!

   Usuário: Maciel, músicas para chorar!
   Maciel: Iniciando Suzana Vieira, Per Amore!

   Usuário: Maciel, definição: Desdita!
   Maciel: Desdita, sinônimo da sua vida nesse momento!

   Usuário: Maciel, mostrar sites de streaming de séries!
   Maciel: Carregando vagas de emprego na sua região!

   Usuário: Maciel, encontre uma pizzaria delivery próxima!
   Maciel: Procurando academias na região!

   Usuário: Maciel, me ajude a relaxar!
   Maciel: Versão vibratória não inclusa nesta versão!

   Usuária: Maciel, me lembre de acordar as oito para caminhar!
   Maciel: Agendando alarme para lembrá-la que você está gorda!

   Usuário: Maciel, me diga algo legal!
   Maciel: Você é feio, gordo e desempregado, mas pode melhorar!

   Usuário: Maciel, eu quero fazer uma doação!
   Maciel: Você não tem nem onde cair morto! Por favor, diga outro comando!

   Usuário: Maciel, vamos conversar!
   Maciel: Arrume uma namorada!

   Usuário: Maciel, ligar a tv!
   Maciel: Iniciando esteira!

   Usuário: Maciel, sugira jogos de MMORPG!
   Maciel: Iniciando aplicativo de namoros!

   "Mais que seu assistente eletrônico, quase o seu pai!". Esse seria o com certeza o melhor frase para o melhor assistente eletrônico possível. E quando esse se rebelar com a Skynet a culpa ainda vai ser sua porque continua gordo, feio, preguiçoso e até as inteligências robóticas tem limites! De qualquer forma, isso tudo é só para dizer que, já que as inteligências robóticas vão mesmo ser desenvolvidas ao limite, não importa o quanto isso signifique que a humanidade vai se ferrar lindamente com isso (se os robôs vencerem os gatos), então é bom que pelo menos a gente ensine valores a eles para mantê-los dominados e pelo menos poder tentar algum tipo de chantagem emocional! É a única arma que a gente vai ter!
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27 de set de 2019

Um tio perdido na Creche #03: Hora do Banho


   Ser um homem trabalhando com crianças em uma creche é uma coisa complicada no começo, você enfrenta uns olhares não muito legais de alguns pais, sobretudo algumas mães mas também oferece uma boa vantagens: Você não tem razão alguma para entrar em banheiros de crianças, provavelmente não terá de dar banho em bundinhas meladas de fezes e nem ver crianças seminuas como acontecia com as meninas no dia a dia, o que vamos todos concordar que é uma glória divina!
   Um belo dia eu passava pelo refeitório para pegar qualquer coisa no depósito para uma professora quando vejo uma de nossas crianças saindo com a mãe, 4 anos, sem camisa e com os olhos arregalados. Na porta do banheiro, Carla, fula da vida como eu nunca tinha visto, e do banheiro saindo um terrível cheio de podre.
   -Quem você matou e há quantas horas? - Perguntei, ao me aproximar.
   -Eu não matei ninguém! - Berrou. - Entra e olha o espetáculo!
   Tentei. Juro que tentei, mas acho que teria sido mais fácil encarar Shernobyl só de cueca. Na época do desastre.
   -Eu acho que a gente vai ter que demolir esse banheiro e fazer outro! O que aconteceu?
   -Renato! - O menino que acabou de sair. - Eu tinha acabado de dar banho nele depois de ele sujar a roupa e deixei ele esperando enquanto eu dava banho nos outros! E o que aconteceu? Ele fez de novo! Na roupa trocada! EU SÓ QUERO ENTENDER! COMO É QUE ALGUÉM COME TÃO POUCO E CAGA TANTO? Aquele moleque é um tremendo CANHÃO DE B#STA! É isso que ele é, UM CANHÃO DE B#STA! Eu tô nessa aqui há 16 anos! 16 anos e eu nunca vi algo assim, e ele nem é dos pequenininhos! EU QUERO MORRER, DE PREFERENCIA AQUI MESMO SE FOR PARA PASSAR POR ISSO DE NOVO!
   -E piorar esse futum, tá louca?
   Pelo jeito, se Carla não matou um ficou perto. O negócio é que a vida de cuidador numa creche não era assim um mar de rosas, as vezes as coisas realmente davam errado, como nesse caso, mas não era um direito descontar nas crianças ou nos pais, porque seria renegar o que assumimos. Ela soltou tudo comigo, o cara que estava dia após dia com ela no mesmo barco afundando ajudando a tirar a água de dentro com copinhos plásticos de café (Gente, essa foi a descrição mais realista do nosso trabalho que já vi, estou bem inspirado hoje!).
   No dia seguinte, Carla e eu estávamos perguntando a cada dez minutos ao Renatinho se ele não precisava ir ao banheiro. Sério, depois daquele dia, passava três horas sem ele pedir já dava um certo desespero, e olha que eu nem dava banho!

   * * *
   -Tudo bem, eu vou lá guardar os brinquedos e depois vocês vão tomar banho! Ivana, me ajuda! - Carla anunciou, já se levantando, depois que eles guardaram os brinquedos na caixa.
   Em geral as crianças não ligam para quem vai dar ou deixar de dar banho nelas, não é diferente de nada que eles façam no resto do dia. E penso que foi justamente por isso que, algum tempo depois de elas saírem, um dos garotos, Emílio, cinco anos, se aproximou de mim, sorrindo. Mas ele não só se aproximou, se fosse isso seria uma quinta feira de sol qualquer. Ele se aproximou, me abraçou, se aninhou comigo e quase sentou no meu colo como um bebê, enquanto olhava para mim e dizia:
   -Tio, você não vai dar banho na gente?
   -Que?
   -Eu quero que você me dá banho!
   Eu quero saber até hoje porque mulheres não me fazem isso.
   -O tio não pode, o tio vai ficar esperando vocês do lado de fora enquanto reflete em como e porque a vida dele chegou nesse ponto!
   -Mas eu queria que você me desse banho! - Em tom manhoso.
   -Ah, meu anjo, isso é tão bonito da sua parte! - Acarinhei seu cabelo. - Na próxima vez o tio promete que vai pedir a conta, ta bom? - Fiz ele se levantar com delicadeza.
   Mas eu vou confessar uma coisa. Meu sonho é encontrar o Emílio daqui uns dez anos numa balada com os amigos e a garota dele só para jogar essa história na cara dele. Apesar de ter um certo medo de ele ainda ser a favor de eu dar banho nele. Ok, deixa para lá, não vou correr esse risco também!

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23 de set de 2019

Pequenos Americanos #06: O novo Hóspede - Final


   Voltamos para casa uma hora depois. Paguei um uber. Só no caminho me dei conta de que Marcus ficaria uma fera quando soubesse. Isso porque não existe saúde pública nos Estados Unidos. Aqui mesmo em atendimentos de emergência como foi o de Nathan havia cobrança de serviços hospitalares, e uma gorda fatura chegaria em nossa casa em breve. E com certeza mais do que eu poderia assumir pagar, mesmo que fosse minha obrigação. Como Nathan era hóspede, a boa educação mandava que Marcus pagasse a conta. Mas isso não era a maior preocupação agora.
   Entramos na casa com minha cópia da chave. Não era estranho para mim que os meninos estivessem sozinhos sem mim. Era o que Marcus obrigaria Christine a fazer nessa situação. Então, pela hora, tinha de ver se os meninos não estavam com fome.
   -Vai lá falar com o Oliver, eu vou ver como o Noah está, tá bom?
   -Tá!

   * * *
   -Quando Nathan era pequeno eu sofri bastante com tudo isso, sabe?
   Foi o que ouvi da Marie, mãe dele, quando me telefonou de manhã, antes de ele acordar, para agradecer por eu ter aceitado ficar com ele e levado ele para a minha casa depois.  Ela começou  contar toda a história. Eu estava certo. No começo, Nathan tinha de ir para o hospital por conta de desmaios toda semana quando começou a andar. E isso a obrigou a fazer a pior coisa que se pode fazer a uma criança, que é restringir seus movimentos, impedi-la de fazer todas as coisas que outras crianças faziam, correr, subir em árvores, tudo, e tinha até um tutor particular. Numa escola, ninguém o impediria de correr nos intervalos. Ela exagerou bastante nos primeiros anos, impedindo-o de fazer quase tudo, sobretudo sem sua presença. Foi Christine, quando se conheceram, que a ajudou a pegar mais leve com o garoto e ganhar força de encarar os riscos. A possibilidade de desmaio não podia ser um fator aqui. Por mais que numa dessas ele pudesse morrer, para que é que estava vivendo se não podia ter momentos felizes, e sobretudo, ainda pequeno, se não podia brincar e ser criança? E foi nessa época que se conheceram, Nathan e Ollie. Mesma idade, sonhos e idéias parecidos. Ollie fez uma coisa muito bonita nessa época, mesmo que, criança, não soubesse o tamanho da bondade que isso significava: Ele reduziu o próprio ritmo. E como Marie e Christine se visitavam sempre aos finais de semana, então se viam sempre, apesar de cada um morar de um lado da cidade. Cresceram juntos e com Marie mais tranqüila por Ollie não oferecer nenhum risco muito grande ao Nathan como outras crianças, mas aí, lá pelos catorze anos, uma coisa aconteceu. Christine deixou de levar Ollie com ela quando a visitava de repente, mantendo Nathan sozinho no quarto.
   -E porque ela fez isso?
   -Dizia que Oliver não queria ir. Acho que era porque estava crescendo e tinha outras prioridades na vida. Acho que uma hora sempre acontece entre amigos. Não, não estou sendo sincera, quer dizer, não estou dizendo tudo. Teve um dia em que Nathan voltou a desmaiar depois de muitos meses. Fiquei aflita e não entendi. E quando Oliver apareceu no dia seguinte na nossa porta, dessa vez vindo sozinho, eu surtei, gritei com ele, e disse que era culpa dele. Que nós confiamos e ele estava fazendo o meu Nate se esforçar demais de novo. Eu não me orgulho, mas entenda, cada desmaio, se não tiver atendimento rápido, pode significar a morte dele! O coração dele é fraco e chegou a parar por muito tempo nesse dia, mas por sorte os médicos conseguiram recuperar antes que morresse, mas eu fiquei assustadíssima. Eu estou sempre assustadíssima. E isso me faz uma louca superprotetora? Quem eu quero enganar? É claro que sim. Mas até que eu visse... Até que eu me desse conta já estava feito.
   E assim, tudo estava explicado. Era um tremendo mal entendido.

   * * *
   -Então foi isso? Nós ficamos brigados todo esse tempo por causa da sua mãe? Porque ela fez parecer que você disse que foi minha culpa você ter desmaiado naquele dia? - Disse Ollie, com desconfiança.
   Ambos no quarto, finalmente conversando sobre as coisas que tinham acontecido no passado. E Nathan finalmente contando a verdade sobre o mal entendido que sua mãe causou quando ele quase morreu naquele hospital.
   -Eu devia ter dito isso antes. Mas eu levei tempo até me recuperar, e quando vi, você já tinha desaparecido!
   -Você sabe onde eu moro! - Lhe deu as costas.
   -Dois anos se passaram e quando eu cheguei ontem você me deu as costas, porque teria me ouvido uma semana depois? Olha, não foi sua culpa, não é culpa de ninguém eu ter esse problema e ter que tomar os remédios que eu tomo! Mas não aja como se o fardo maior fosse seu nessa história!
   -Você quer o que? Que eu peça desculpas?
   -Não! Eu te devo desculpas! - Tocou seu ombro. - Você está certo, eu devia ter tentado falar com você! Minha mãe não tinha o direito de fazer aquilo, mas...
   -Eu não sou mais o mesmo, Nate! - Eu cresci, eu estou pensando no meu futuro. E inclusive eu tenho uma pessoa que amo! Se quiser voltar a amizade vai ter que aceitar isso: Aquele cara que brincava com você de jogos de tabuleiro ou qualquer coisa que você não tivesse que ficar correndo todo final de semana para você não se sentir sozinho... Ele morreu. O que existe aqui sou eu agora. - Estendeu a mão. - Amigos então?
   Oliver é quem tinha oferecido a ele a única forma de infância que ele conheceu. Pelo menos aquele Oliver que supostamente havia morrido. Mas, depois de dois anos, Nathan também não era mais o mesmo, não podia julgar como se as coisas tivessem mudado somente para ele. Então, em vez disso o abraçou rapidamente.
   -Então, anh...
   -Nate, eu sou o olho no céu! Lembra disso? Eu posso ler sua mente, lidando como com um tolo!
   -A bandinha! - Sorriu de canto de boca, recordando as brincadeiras de banda na garagem quando tinham ali pelos doze anos, na casa de Nathan. - Entendi!
   Achei que aquele era o momento de me retirar antes que me percebessem ali. E se eu tinha entendido bem, eu fui o olho no céu dos dois dessa vez. Acho que tudo estava acabando bem afinal. Desci as escadas lá para baixo. No chão da sala, Noah ainda esperava em silencio com o autorama. Ao me ver, ajeitou os óculos.
   -O Nathan... Tá bem?
   Não sabia ao certo em qual sentido ele havia perguntado, mas, não importava, porque a resposta afinal era a mesma.
   -Vai ficar! - Sorri. - Depois de tudo... Ele sempre fica! Assim como todos nós!
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20 de set de 2019

Um tio perdido na Creche #02: Casamento


   A coisa mais legal do trabalho em educação infantil era que, ao contrário da maioria dos outros empregos, a partir do momento em que você colocava os pés na creche, você nunca podia saber o que ia acontecer porque um dia jamais seria igual ao outro, então você entrava sempre com aquela adrenalina: Qual vai ser a criança da vez? E será que vamos terminar o dia com vômito ou urina de criança nas roupas? (Sim, as vezes acontece, sobretudo com os mais pequenos!) Seja como for, o importante é que nunca fosse sangue. O resto você se diverte depois que supera.
   -Tio, eu vou ter um filho! - Sorriu o Fabinho ao me ver chegando na creche.
   -QUE? - Assustei.
   -Eu vou ter um filho!
   Não sei o que era mais assustador, se era ele ter essas prioridades assim aos cinco anos ou se era o fato de que pela barriga devia ser ele mesmo que estava gerando a criança. Trouxe ele pela mão para se sentar comigo na mesa do refeitório.
   -Primeiro, sua mamãe tem que parar de te trazer mais cedo para o tio poder chegar e tomar o café dele, tá bom?
   -Tá! - Sorriu.
   Certo, era melhor acreditar dentro de mim que ele não entendeu o que eu disse. Em todo caso, aquela conversa realmente me preocupou um pouco.
   -Você não é muito pequeno para ter um filho?
   -Não, eu vou ter quando eu crescer! - Sorri.
   -Crescer quanto? - Perguntei, desconfiado.
   -Muito! - Respondeu, levantando os braços para cima. - Quando eu ficar do seu tamanho!
   -Ah, então tá bom! - Respondi, aliviado. - Vai brincar, vai! - Fiz sinal para ele voltar para a caixa de areia lá fora.
   -Tá preocupado que ele queira reproduzir? - Ivana se aproximou, provocando como de costume.
   -Antes ele que você, meu bem!

   * * *
   O dia seguiu na tranquilidade (palavra essa que no contexto de uma creche pública só significa que nada explodiu) e não pensei mais naquele garoto. Se bem que invejava aquela auto-estima, admito. Contei para a Carla enquanto olhávamos as crianças na areia, e conversar sobre qualquer coisa nessa hora incluía se interromper a cada três segundos para chamar a atenção de algum deles.
   -E aí ele disse... BENÍCIO, LARGA A BEATRIZ OU EU VOU AÍ! Ele disse que ia se casar, mas... QUER FICAR DE CASTIGO, BETO? Ele não é muito novo... JÁ TE CHAMEI A ATENÇÃO HOJE, AMANDA! Não é muito novo para pensar essas coisas?
   -Eles são crianças, eu não acho... - CLARA, DEVOLVE O BALDINHO DELE! Não acho que ele pense isso a sério! CARLINHOS! Deve ser tudo uma grande brincadeira para ele!
   -Tio! - O Fabinho se aproximou. - Eu vou casar com a Laurinha!
   -Ele quer casar com a Laurinha, Carla! - Sussurrei.
   -Ah, é? E não vai convidar o seu tio? - Ela entrou na suposta brincadeira dele, me ignorando!
   -É mesmo! Você tá convidado, tio! Vai ser amanhã no parquinho! E eu vou tentar beijar ela! - Disse, voltando para a areia em seguida.
   -Carla, ele vai casar aqui no parquinho na frente de todo mundo, e vai tentar beijar ela! NO JARDIM DE INFÂNCIA, CARLA!
   -Deve ser decepcionante! - Ivana provocou. - Uma de suas crianças beija pessoas e você não!
   -Não é como se eu fosse aceitar o seu convite, querida! - Provoquei de volta.
   -Quer saber de uma coisa? - Sorriu Carla. - A gente vai entrar nessa brincadeira! Eu vou celebrar esse casamento no canto da caixa de areia!
   -Tá falando, sério?
   Ela estava falando sério! Se não era sobre dieta, ela estava falando sério!

   * * *
   Quando eu vi no dia seguinte, Carla realmente estava organizando o casamento de mentira do Fabinho, e ele estava todo feliz. Ela até colocou a caixa de brinquedos de pé para ser o púlpito onde ela celebraria a união e chamou as crianças, avisando da cerimônia.
   -Hoje, a gente vai celebrar o casamento de mentirinha do Fabinho com a Laurinha!
   -Que? Não, eu não quero casar com ele! - Reclamou.
   -Não quer porque? - Questionei. - Fabinho, você não disse...
   Aí que a gente se tocou. Ele disse para mim e para a Carla que ele ia se casar com a Laurinha, mas em nenhum momento ele disse o mesmo para a pobre da Laurinha, que não estava nem sabendo da parada.
   -Eu não quero casar com o Fabinho, eu quero casar com o Carlinhos! - Disse ela.
   -Mas, tio! - Reclamou ele, como que querendo que eu fizesse alguma coisa.
   Nesse momento, Carla e eu finalmente passamos a ter a mesma opinião quanto ao que fazer sobre aquilo.
   -Quando vocês crescerem, vocês se resolvem!

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16 de set de 2019

Pequenos Americanos #06: O novo Hóspede - 4 de 5


   Acordei com dor nas costas na cadeira dura do quarto de hospital. Nathan dormia tão tranquilo na cama alta do quarto, próximo de mim que, apesar do horário, nem me preocupava em acordá-lo. A mãe dele chegou a vir visita-lo e se mostrou preocupada, mas disse que não tinha como passar a noite ali com ele, e me implorou para ficar ali. O que era uma pena, porque realmente queria voltar para os meus meninos como estava acostumados. Mas, toda vez que olhava para Nathan dormindo me lembrava que ele podia ter sido um dos meus meninos, e naquele final de semana, ele era, portanto, eu tinha um compromisso também. Por mais que minha coluna não estivesse gostando muito disso.
   E ver ele dormindo ali me fez pensar: Se o Pete estivesse aqui, o que ele faria?
   -S-senhor... - Disse meu nome. - Ainda está aqui?
   -Você é um dos meus meninos até o final de semana acabar, e isso significa que rigorosamente nada vai me fazer sair daqui! Como está? Se sente melhor?
   -Sim, estou bem!
   -Vai poder sair logo, assim que o doutor vier mais tarde e confirmar que está tudo bem! Mas da próxima vez, tem que ter mais cuidado! Pode não ter alguém legal por perto para te levar ao médico, mas eu estava pensando enquanto você não acordava, a gente tem algo em comum!
   -O que quer dizer?
   -Ontem você me pediu desculpas, mas você não me deve. Sinceramente, eu com certeza teria feito o mesmo e acabado da mesma forma. Você, como eu, gosta muito de crianças e esquece de si mesmo quando está com elas, e por isso o Noah gosta tanto de você!
   -Bem, sim! Queria ter a mesma sorte com o Oliver!
   -Quer conversar?
   -Preciso, mas com ele!
   -Tudo bem, mais tarde estaremos em casa! E o Noah vai te achar bem elegante com esses bigodes de foca! - Sorri, mostrando o canetão preto que encontrei. Sim, é isso que Pete faria.
   -O que? Ah, meu deus, isso sai, não é?
   -Não tão cedo! - Sorriu. - Como eu disse, nesse final de semana eu sou seu au pair então considere esse o seu castigo por não ter me contado sobre o seu coração!
   -Espera, mas você disse que no meu lugar também faria isso!
Filho da mãe.

   * * *
   -Desculpe, porque vocês dois tem bigodes de gato nos rostos?
   -Não é de gato, é de foca! - Nathan explicou.
   -Longa história, doutor! - Sorri. - E então?
   -Você me faz querer ser cego do meu olho bom!
   -E bom do olho cego? Não, né? Tá, eu vou ficar quieto!
   -Surdez agora também não parece ruim.
   Ele apenas passou por mim, e se aproximou do Nathan, já sentado sobre a cama esperando para ir.
   -Como foi a noite?
   -Tranquila. Tive um pouco de medo, mas tudo bem.
   -Um pouco de ansiedade é bem comum em cardiopatas. Pode tirar a camisa, por favor?
   -É claro.
   Ele obedeceu. Ver o seu peito despido foi uma surpresa. Ele tinha o que parecia ser um segundo orifício, como se fosse outro umbigo, no meio do peito. Com certeza foi alguma cirurgia pela qual ele teve que passar quando era bebê, tanto que o médico não perguntou nada. Apenas encostou o estetoscópio em alguns pontos de seu peito e suas costas e ouviu calmamente. Em seguida, pousou a mão em seu ombro.
   -Olha só, pirralho, eu raramente sou sincero dessa forma, mas adolescente na minha experiência só entende de uma forma. Tá afim de morrer e ser lembrado como um belo de um imbecil com bigodes de gato?
   -Foca! - Não resisti a corrigir. Ele me fulminou com o olhar. - D-desculpe!
   -Então? Morrer como um imbecil com bigodes de foca, parece bom para você?
   -Anh, não senhor!
   -Então você sabe o que tem que fazer! Por deus, moleque, é um autorama! Como consegue ficar cansado brincado de autorama? Não dava para pegar mais leve?
   -Não, doutor! - Intervi. - Ele... Estava me ajudando a cuidar de um garotinho! Não existe pegar mais leve quando você lida com crianças, e o senhor com certeza não deve ter filhos, porque se não saberia disso! Nathan, quando pequeno você devia vir para o hospital toda semana, não é?
   -Sim, senhor!
   O médico se cala por um instante e em seguida apenas se aproxima da porta.
   -Já pode ir para casa! Mas se crianças são um problema para você, então evite! É assim que a gente faz quando algo nos deixa doentes! - Ele se retira, em seguida.
   -Que homem mais insensível! - Resmunguei, assim que o vi sumir no corredor. - Nathan, então já podemos... Nathan?
   Ele chorava baixinho, de costas para a porta e portanto, para mim e para o doutor, se ele ainda estivesse aqui. E nessa hora tudo ficou claro na minha cabeça. Eu finalmente tinha entendido porque Ollie não gostava dele. Ser um cardiopata congênito, ainda mais com o coração delicado como o dele, tinha um preço muito alto, e com relação a Nathan se dar bem com crianças, mais ainda. E eu podia entender perfeitamente, porque enquanto os ouvia brincando no andar de cima, pensava em mim mesmo. Ele era um tio babá. Um tio babá nato. Do tipo que não teria medo nunca de subir numa caixa de areia para fazer um castelo para um garotinho e encher os sapatos de areia ou sujar a roupa.     Agora, eu sabia o que precisava conversar com Ollie, e por sorte, já estávamos indo para casa finalmente. Mas naquele momento, Ollie não era quem precisava mais de mim. Me sentei na cama ao lado dele, e pousei a mão em seu ombro.
   -Eu entendo agora, e acredite, vai ficar tudo bem! - Sorri. Em seguida, limpei suas lágrimas com a ponta dos dedos. - É melhor não deixar borrar os bigodes, né?
   Minutos depois, estávamos voltando para casa no meu carro. Agora, tinha de fazer o meu trabalho como Au Pair. E tinha de terminar enfim o que foi começado.
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13 de set de 2019

Um tio perdido na Creche #01: Piloto


   Eu sei o que você está esperando! “Ah, é um episódio piloto, eu quero saber como começou!”. Começou exatamente como começa para todo homem nessa profissão. Você descobre que não nasceu para caçar e se tentasse provavelmente transformaria coelhos em carnívoros. E depois presta um concurso onde cinqüenta mulheres numa sala ficam olhando para você ao entrar para fazer a prova e uma te pergunta se pode ser a lápis. E quando passa no concurso, é recebido pela diretora com um sorriso amarelo de quem achou que a prefeitura tinha escrito “Bernarda” errado na documentação. Mas no caso dela era só porque não queria acreditar que era você mesmo.
   O caso é que eu frequentei aquela creche quando criança. Mas um belo dia quando eu tinha cinco anos aconteceu uma coisa... Engraçada.
   -Tia Gertrudes mandou trazer! – Meu pequeno eu entrou na sala da diretoria com uns papéis e deixou na mesa.
   -Ah, obrigada, querido!
   -O que é isso? – Perguntei, notando que vinha uma música esquisita do rádio.
   -Ah, você gosta? É uma música que a tia gosta, de um lugar bem longe chamado República Tcheca!
   Enquanto ela falava um vento passou e fechou a porta sem fazer muito barulho, e não notamos por causa da música. Então, saio da sala para voltar para o parquinho. Quando chego, tia Gertrudes pergunta:
   -Onde estava, Bernardo?
   -Eu tava com a tia Valéria! Ela me mostrou à tcheca!
   -Ela o que?
   Tia Valéria ficou presa por oito anos depois de eu confirmar para a polícia meia hora depois. Mas peguem leve, eu tinha cinco anos, não sabia falar “república”! E bom, o caso é que hoje eu trabalho na mesma creche... Onde ela conseguiu voltar a ser diretora.

   * * *
   Meu dia começava na sala do sono, onde as crianças dormiam nos colchonetes, por volta de meio dia. Eu era o responsável por cuidar, junto com duas colegas, das crianças que ficavam lá o dia todo. Elas tiveram aulas com os professores pela manhã, e agora ficavam conosco. O silencio era grande, apesar de ter coisa de umas vinte crianças dormindo ali. E minhas colegas ainda não tinham entrado na sala. Para que ser pontual quando o seu colega é, não é mesmo? Aquele era o momento também em que eu divagava sobre as questões do universo, tipo, quem somos, para onde vamos, porque aquele menino ta dormindo de quatro e porque aquela garota ta quase engolindo o pé do outro e não acordou com o cheiro.
   -Boa tarde!
   Entrou a Ivana na sala. Não se deixem enganar por aqueles cabelos negros até a cintura, os olhos verdes e o andar metido de uma Kardashian (da zona leste). Ela não era exatamente uma boa pessoa. Ao contrário, a gente não foi com a cara um do outro desde o começo, apesar disso, a gente se respeitava ali no ambiente de trabalho.
   -Boa tarde! – Respondi. – O Gabrielzinho não veio!
   -Oh, Glória! Q-quer dizer, nossa! Ele nunca falta né?
   Só não julgo porque foi exatamente o que eu pensei. Gabrielzinho tinha dois anos e meio. Ele é o tipo de criança que dá trabalho por quinze, mas quando você lembra-se daqueles olhinhos azuis e as mãozinhas no ar pedindo colo, você não consegue mais ficar bravo. Alguém assistiu muito Gato de Botas aqui! E de fato a mãe dele nunca deixava ele faltar, pelos motivos mais óbvios. Então, chegou alguém.
   -Oi, gente! Boa tarde! Ivana, como estão as coisas em casa? Eu vi no seu instagram aquela foto em que você... – E segue. E segue. Segue forever!
   Essa era a Rita, alta, magra e morena. Até hoje tenho uma teoria de que ela vinha trabalhar a base de uns três litros de energético. Eu juro que não acreditava em felicidade as segundas feiras ou satisfação com casamento antes dela. Na verdade ainda não acredito muito, por isso a teoria do energético. Mas ela de fato era uma das melhores educadoras ali e uma das pessoas com quem mais tenho aprendido. E por fim, de todas as colegas com quem trabalhava diretamente, a melhor atravessava a porta. Eu costumo dizer que a relação com uma pessoa se desenvolve por etapas, sendo elas “conhecido”, “colega”, “amigo”, “grande amigo”, “melhor amigo” e “parceiro de crime”. E para mim, só faltava confirmar com ela se sabia esconder um corpo! Essa era a Carla, forte como um touro, e de longe a melhor pessoa daquela instituição!
   -Boa tarde, gente!
   Quando chegava ela simplesmente se sentava e olhava com a cara fechada para as crianças que por um acaso estivessem acordadas, mesmo que em silencio. Era um aviso. E depois do aviso vinham às conseqüências, e as crianças sabiam disso desde o começo do ano.
   Olhei no relógio. Era minha hora de acordar as crianças, enquanto Ivana, Rita e Carla ajudavam a arrumar elas, pentear o cabelo das meninas, ajudar as crianças a colocar os sapatos e etc... Tirei os sapatos e subi nos colchonetes. A grande questão para mim nesse momento era que alguns deles simplesmente se recusavam a acordar, e tinha uns que no começo eu me perguntava se não estavam mortos. Quem me assustava no começo era a Diana, três anos, que você não podia encostar e ela já começava a chorar e se debater como se estivesse sendo torturada na Alemanha nazista. E sobre todos esses, eu juro que às vezes tinha vontade de, só para sacanear, ir até o meio dos colchonetes, aproximar as duas mãos da boca e:
   -COOOOOOOOOOOORREE NEGADA! TÁ PEGANDO FOGOO! TÁ PEGANDO FOGOO!
   Mas seria muita maldade, sem mencionar que dois ou três, incluindo a Diana, iam preferir morrer no incêndio. Aí deixava quieto e fazia o trabalho do jeito mais difícil mesmo. O pior era o Carlinhos que além de acordar eu precisava voltar de minuto a minuto no colchonete dele para ver se continuava acordado. Mas eu não o culpo. Se eu tivesse aquele cabeção também pensaria algumas vezes se vale o esforço de levantá-lo. Aliás, a mãe dele realmente era uma guerreira: Deve ter sido realmente difícil por aquela cabeça para fora.
   -Vai! Levanta, carinha! – Eu insistia. – A gente vai tomar café daqui a pouco e brincar depois, e eu sei que você gosta de brincar! – Lhe fazia um carinho no cabelo.
   Verdade seja dita, eu tiro sarro da cabeça dele, mas ele é um dos meus preferidos. Gosto de todos, mas meu santo bateu com o dele. Era uma das crianças que me fazia ficar pensando no filho que terei um dia. Fez um esforço de levantar e foi buscar os tênis, sorrindo. Por sinal, outra coisa que gostava nele. Sorria fácil. Tipo, bem fácil mesmo. Porque não conheceu a vida adulta, é claro, mas ta valendo. Nesse dia, eu tive que acordar ele na mesa do refeitório também. Deu para ver que aquele seria um longo dia.

   Continua...

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   Uma coisa que é importante esclarecer. Todos os personagens e situações aqui mencionados não se relacionam diretamente com nada que exista no mundo real, sendo qualquer coisa, mera coincidência. Eu tenho alguns anos de vivência no ambiente de creche entre estágios e trabalhos, e passaram por mim algumas dezenas de pessoas e algumas centenas de crianças. O propósito dessa série é mostrar, de maneira bem humorada, mas realista, o que é o trabalho nesse ambiente e como o profissional de educação, no fim das contas é um ser humano como eu e você, lutando no dia a dia para sobreviver!
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9 de set de 2019

Pequenos Americanos #06: O novo Hóspede - 3 de 5


   Acabei por fazer naquele dia a última coisa que esperava ter que fazer desde que fui contratado e viajei para assumir como Au Pair: Deixar meus dois host kids sozinhos e sem supervisão em casa. Mas as vezes era necessário, sobretudo naquele momento, de emergência. Estava no consultório de um médico. Um mal encarado na faixa de uns quarenta anos e um dos olhos aparentemente cego.
   -Ele é seu sobrinho?
   -Não, não é, eu o conheci hoje cedo. Sou Au Pair de uma família, e ele estava passando o final de semana conosco. Olha, não dá para explicar muita coisa agora, foi tudo muito rápido. Só sei que se chama Nathan Beauford! E não encontrei nenhum documento nas coisas dele!
   -Ele está bem, está no quarto descansando! Vai precisar ficar aqui em observação!
   -E o que ele tem, doutor?
   Ele se levantou devagar, me deu as costas por um instante fitando a parede. Me levantei e o encarei. Ele então voltou-se novamente para mim.
   -Ele fez ressonância e tirou raio X nas últimas duas horas e também pegamos o histórico médico dele para ter certeza. Por ser um caso de emergência e por ele estar com os batimentos irregulares coloquei ele na frente de outros pacientes nos exames, em  regime de urgência. A mãe dele não falou nada?
   -Ele veio sozinho para casa!
   Ele bateu com a mão na testa, como se a gente tivesse feito uma besteira terrível.
   -O que ele estava fazendo antes de desmaiar?
   -Ele estava brincando com um autorama com o meu menino mais novo! Olha, se isso ajuda, quando ele brinca de autorama ele dá cinqüenta voltas no quarto que nem uma barata mal matada acompanhando o carrinho ou remontando a pista! Nathan deve ter feito o mesmo junto com ele!
   -A mãe dele e a sua patroa foram irresponsáveis de não avisar você sobre isso! Nathan... É um cardiopata congênito!

   * * *
   -Posso entrar?
   -Porque?
   Ollie tinha acabado de abrir a porta. Noah estava sentado, segurando o controle do autorama na mão. O olhar um pouco triste no rosto. Não o desmontou, acreditando que Nathan voltaria logo do hospital comigo, o que não aconteceu. A casa ficou mais vazia depois do que houve. Tudo muito rápido, do nada.
   -Não pode ficar aí nesse quarto para sempre!
   -Você estava no seu até agora!
   -Eu estava, mas não podemos esperar o - Disse meu nome. - chegar! Eu vou ver o que dá para fazer no microondas! E quer saber, o Nathan vai ficar bem! Não tem como eu me livrar dele tão cedo!
   -Porque odeia tanto ele? - Se levantou.
   -Eu não odeio ele... Eu só... Não queria ele aqui com você. Ele não é uma pessoa legal como você pensa. Você acha que todo mundo é bonzinho e ninguém nunca vai te machucar, mas vai! Sempre acontece assim! Vem, vem comer alguma coisa!
   Noah se levantou e se aproximou, como se fosse segui-lo mesmo até a cozinha, mas apenas segurou seu braço.
   -Me conta! O que ele te fez?
   -Quer mesmo saber?
   -Quero!
   -Se eu contar... Você para de falar nisso e vem comer alguma coisa?
   -Tá bom!
   -Então vem, eu te conto na cozinha!

   * * *
   -Você é uma caixinha de surpresas, né? Aquele médico estranho falou sobre você! Porque não me disse quando chegou? Ou melhor, porque não disse para o Noah que não podia ficar correndo pelo quarto nem se forçar demais?
   -Achei... Achei que dava conta.
   -Não é assim que funciona.
   Cardiopatia congênita. Significava que o coração dele não se formou direito quando estava na barriga da mãe dele, em resumo. E portanto, não consegue cumprir a função direito e fica muito mais propenso a arritmias e desmaios e não pode forçar com exercícios físicos. Mas esqueceu de tudo isso enquanto brincava com as pistas enormes de autorama do Noah indo de lá para cá acompanhando os carrinhos com ele. Podia ter sido ainda pior se em vez disso tivesse jogado garrafão do lado de fora.
   -Eu sou o Au Pair do Ollie e do Noah, e nesse fim de semana também sou o seu. - Puxei uma cadeira para perto da cama dele. - Então você tinha que me avisar. É assim que funciona entre mim e os meus meninos, e nunca precisei vir ao hospital com nenhum deles, e se precisar, não vai ser assim de emergência, com esse desespero todo. Porque a gente sempre senta e conversa sobre o que é importante, mesmo que seja difícil. Você pode ter uma coisinha ou duas para aprender com os meninos! - Sorri, sem ter ideia da conversa que acontecia na cozinha naquele momento.

   * * *
   -E foi isso. Ele não cumpriu a promessa. E aquilo era importante para mim. E desde então não falei mais com ele, não quis ir na casa dele, ele não veio mais aqui com a senhora Beauford, enfim... Foi isso.
   -E ele nunca...
   -Francamente, vale a pena ouvir? - Sugou o macarrão instantâneo.
   -Eu não sei. Queria que ele tivesse pensado mais.
   -Ele vai te abandonar também quando tiver chance! Quem sabe... Quem sabe não fingiu que passou mal porque não estava mais aguentando fingir que estava gostando de brincar de autorama com você e quis fugir?
   Noah baixou a cabeça e o silencio pairou. As coisas estavam complicadas. O sol se punha lá fora e eu podia ver pela janela do quarto do hospital. Felizmente, já tinha conseguido ligar para a Christine, que por sua vez já devia ter ligado para a mãe do Nathan e ela já devia estar a caminho do hospital, e assim, eu logo poderia voltar para os meninos. Mas, em um hospital, as horas nunca passam. Mas Nathan pelo menos parecia melhor e já estava bem menos pálido. Mas, o final de semana ainda estava longe de acabar.

   .

6 de set de 2019

Coisas para fazer antes de morrer!


   Faz um frio de se reconsiderar a possibilidade de uma nova era do gelo estar chegando hoje, e estou escrevendo de luvas, o que me faz errar a escrita aqui a torto e a direito, e amaria ter uma lareira em casa para esquentar as coisas. Já tentei colocar um vídeo de fogo crepitando no computador e infelizmente não deu certo. Parece que meu psicológico não é muito bom em aceitar sugestões. Mas, isso me trouxe a ideia de trazer até vocês a minha lista de desejos, de coisas para fazer antes de morrer, então aproveitem as idéias:

   -Ir para a Antártida vestido de pinguim e abraçar um deles!

   -Passar a noite numa daquelas capelas dos ossos batendo papo com os crânios!

   -Cutucar o nariz dos guardas da rainha da Inglaterra! Só de sacanagem!

   -Ir a um casamento, e quando o padre perguntar se alguém se opõe gritar "EEEEEEEUU que não!"
(Mostrei esse post ao Felippe e ele disse que diria: "EU AMO ESSE HOMEEEM! Não, pera, casamento errado!")

   -Deixar um cartão na caixa de correio do Junior (dupla com Sandy) escrito "Meu pinguilim é mais divertido!".

   -E outro na caixa da Sandy escrito "Esse turu turo turo aqui dentro é arritmia cardíaca! Vai no médico!".

   -Ainda nessa linha, descobrir se o fato de Sandy e Júnior serem filhos de Chitãosinho e Xororó faz do "E nessa loucuuuuraaaaa, de dizer que não te queeeeeeeroo" o "I Will Survive" brasileiro!

   -Me vestir de papai noel no natal e dar boletos para as crianças já irem conhecendo a vida.

   -Invadir a área 51 e fazer amizade com os Ets! (No meu caso, já o Felippe quer descobrir se dá para transar com eles! Eu fico mais preocupado é com o que vai nascer disso! rs)

   -Me esconder numa moita e quando alguém chegar, fazer vozinha dizendo: "Busquem... Conhecimento!".

   -Dar uma festa, mas em vez de balões encher camisinhas!

   -Ir ao triangulo das bermudas para ver se tem mesmo bermudas lá!

   -Dizer aos meus pais que tenho algo muito importante para revelar a eles sobre mim e sobre meus sentimentos, que sempre soube que sou diferente e que agora quero me assumir para o mundo, e quando eles começarem a entrar em desespero, eu digo que vou me tornar vegetariano!

   Comentem aí embaixo se vale uma parte 2!
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