Comédias de Sempre

Textos novos toda segunda e sexta as 18:30h!

16 de set de 2019

Pequenos Americanos #06: O novo Hóspede - 4 de 5


   Acordei com dor nas costas na cadeira dura do quarto de hospital. Nathan dormia tão tranquilo na cama alta do quarto, próximo de mim que, apesar do horário, nem me preocupava em acordá-lo. A mãe dele chegou a vir visita-lo e se mostrou preocupada, mas disse que não tinha como passar a noite ali com ele, e me implorou para ficar ali. O que era uma pena, porque realmente queria voltar para os meus meninos como estava acostumados. Mas, toda vez que olhava para Nathan dormindo me lembrava que ele podia ter sido um dos meus meninos, e naquele final de semana, ele era, portanto, eu tinha um compromisso também. Por mais que minha coluna não estivesse gostando muito disso.
   E ver ele dormindo ali me fez pensar: Se o Pete estivesse aqui, o que ele faria?
   -S-senhor... - Disse meu nome. - Ainda está aqui?
   -Você é um dos meus meninos até o final de semana acabar, e isso significa que rigorosamente nada vai me fazer sair daqui! Como está? Se sente melhor?
   -Sim, estou bem!
   -Vai poder sair logo, assim que o doutor vier mais tarde e confirmar que está tudo bem! Mas da próxima vez, tem que ter mais cuidado! Pode não ter alguém legal por perto para te levar ao médico, mas eu estava pensando enquanto você não acordava, a gente tem algo em comum!
   -O que quer dizer?
   -Ontem você me pediu desculpas, mas você não me deve. Sinceramente, eu com certeza teria feito o mesmo e acabado da mesma forma. Você, como eu, gosta muito de crianças e esquece de si mesmo quando está com elas, e por isso o Noah gosta tanto de você!
   -Bem, sim! Queria ter a mesma sorte com o Oliver!
   -Quer conversar?
   -Preciso, mas com ele!
   -Tudo bem, mais tarde estaremos em casa! E o Noah vai te achar bem elegante com esses bigodes de foca! - Sorri, mostrando o canetão preto que encontrei. Sim, é isso que Pete faria.
   -O que? Ah, meu deus, isso sai, não é?
   -Não tão cedo! - Sorriu. - Como eu disse, nesse final de semana eu sou seu au pair então considere esse o seu castigo por não ter me contado sobre o seu coração!
   -Espera, mas você disse que no meu lugar também faria isso!
Filho da mãe.

   * * *
   -Desculpe, porque vocês dois tem bigodes de gato nos rostos?
   -Não é de gato, é de foca! - Nathan explicou.
   -Longa história, doutor! - Sorri. - E então?
   -Você me faz querer ser cego do meu olho bom!
   -E bom do olho cego? Não, né? Tá, eu vou ficar quieto!
   -Surdez agora também não parece ruim.
   Ele apenas passou por mim, e se aproximou do Nathan, já sentado sobre a cama esperando para ir.
   -Como foi a noite?
   -Tranquila. Tive um pouco de medo, mas tudo bem.
   -Um pouco de ansiedade é bem comum em cardiopatas. Pode tirar a camisa, por favor?
   -É claro.
   Ele obedeceu. Ver o seu peito despido foi uma surpresa. Ele tinha o que parecia ser um segundo orifício, como se fosse outro umbigo, no meio do peito. Com certeza foi alguma cirurgia pela qual ele teve que passar quando era bebê, tanto que o médico não perguntou nada. Apenas encostou o estetoscópio em alguns pontos de seu peito e suas costas e ouviu calmamente. Em seguida, pousou a mão em seu ombro.
   -Olha só, pirralho, eu raramente sou sincero dessa forma, mas adolescente na minha experiência só entende de uma forma. Tá afim de morrer e ser lembrado como um belo de um imbecil com bigodes de gato?
   -Foca! - Não resisti a corrigir. Ele me fulminou com o olhar. - D-desculpe!
   -Então? Morrer como um imbecil com bigodes de foca, parece bom para você?
   -Anh, não senhor!
   -Então você sabe o que tem que fazer! Por deus, moleque, é um autorama! Como consegue ficar cansado brincado de autorama? Não dava para pegar mais leve?
   -Não, doutor! - Intervi. - Ele... Estava me ajudando a cuidar de um garotinho! Não existe pegar mais leve quando você lida com crianças, e o senhor com certeza não deve ter filhos, porque se não saberia disso! Nathan, quando pequeno você devia vir para o hospital toda semana, não é?
   -Sim, senhor!
   O médico se cala por um instante e em seguida apenas se aproxima da porta.
   -Já pode ir para casa! Mas se crianças são um problema para você, então evite! É assim que a gente faz quando algo nos deixa doentes! - Ele se retira, em seguida.
   -Que homem mais insensível! - Resmunguei, assim que o vi sumir no corredor. - Nathan, então já podemos... Nathan?
   Ele chorava baixinho, de costas para a porta e portanto, para mim e para o doutor, se ele ainda estivesse aqui. E nessa hora tudo ficou claro na minha cabeça. Eu finalmente tinha entendido porque Ollie não gostava dele. Ser um cardiopata congênito, ainda mais com o coração delicado como o dele, tinha um preço muito alto, e com relação a Nathan se dar bem com crianças, mais ainda. E eu podia entender perfeitamente, porque enquanto os ouvia brincando no andar de cima, pensava em mim mesmo. Ele era um tio babá. Um tio babá nato. Do tipo que não teria medo nunca de subir numa caixa de areia para fazer um castelo para um garotinho e encher os sapatos de areia ou sujar a roupa.     Agora, eu sabia o que precisava conversar com Ollie, e por sorte, já estávamos indo para casa finalmente. Mas naquele momento, Ollie não era quem precisava mais de mim. Me sentei na cama ao lado dele, e pousei a mão em seu ombro.
   -Eu entendo agora, e acredite, vai ficar tudo bem! - Sorri. Em seguida, limpei suas lágrimas com a ponta dos dedos. - É melhor não deixar borrar os bigodes, né?
   Minutos depois, estávamos voltando para casa no meu carro. Agora, tinha de fazer o meu trabalho como Au Pair. E tinha de terminar enfim o que foi começado.
.

13 de set de 2019

Um tio perdido na Creche #01: Piloto


   Eu sei o que você está esperando! “Ah, é um episódio piloto, eu quero saber como começou!”. Começou exatamente como começa para todo homem nessa profissão. Você descobre que não nasceu para caçar e se tentasse provavelmente transformaria coelhos em carnívoros. E depois presta um concurso onde cinqüenta mulheres numa sala ficam olhando para você ao entrar para fazer a prova e uma te pergunta se pode ser a lápis. E quando passa no concurso, é recebido pela diretora com um sorriso amarelo de quem achou que a prefeitura tinha escrito “Bernarda” errado na documentação. Mas no caso dela era só porque não queria acreditar que era você mesmo.
   O caso é que eu frequentei aquela creche quando criança. Mas um belo dia quando eu tinha cinco anos aconteceu uma coisa... Engraçada.
   -Tia Gertrudes mandou trazer! – Meu pequeno eu entrou na sala da diretoria com uns papéis e deixou na mesa.
   -Ah, obrigada, querido!
   -O que é isso? – Perguntei, notando que vinha uma música esquisita do rádio.
   -Ah, você gosta? É uma música que a tia gosta, de um lugar bem longe chamado República Tcheca!
   Enquanto ela falava um vento passou e fechou a porta sem fazer muito barulho, e não notamos por causa da música. Então, saio da sala para voltar para o parquinho. Quando chego, tia Gertrudes pergunta:
   -Onde estava, Bernardo?
   -Eu tava com a tia Valéria! Ela me mostrou à tcheca!
   -Ela o que?
   Tia Valéria ficou presa por oito anos depois de eu confirmar para a polícia meia hora depois. Mas peguem leve, eu tinha cinco anos, não sabia falar “república”! E bom, o caso é que hoje eu trabalho na mesma creche... Onde ela conseguiu voltar a ser diretora.

   * * *
   Meu dia começava na sala do sono, onde as crianças dormiam nos colchonetes, por volta de meio dia. Eu era o responsável por cuidar, junto com duas colegas, das crianças que ficavam lá o dia todo. Elas tiveram aulas com os professores pela manhã, e agora ficavam conosco. O silencio era grande, apesar de ter coisa de umas vinte crianças dormindo ali. E minhas colegas ainda não tinham entrado na sala. Para que ser pontual quando o seu colega é, não é mesmo? Aquele era o momento também em que eu divagava sobre as questões do universo, tipo, quem somos, para onde vamos, porque aquele menino ta dormindo de quatro e porque aquela garota ta quase engolindo o pé do outro e não acordou com o cheiro.
   -Boa tarde!
   Entrou a Ivana na sala. Não se deixem enganar por aqueles cabelos negros até a cintura, os olhos verdes e o andar metido de uma Kardashian (da zona leste). Ela não era exatamente uma boa pessoa. Ao contrário, a gente não foi com a cara um do outro desde o começo, apesar disso, a gente se respeitava ali no ambiente de trabalho.
   -Boa tarde! – Respondi. – O Gabrielzinho não veio!
   -Oh, Glória! Q-quer dizer, nossa! Ele nunca falta né?
   Só não julgo porque foi exatamente o que eu pensei. Gabrielzinho tinha dois anos e meio. Ele é o tipo de criança que dá trabalho por quinze, mas quando você lembra-se daqueles olhinhos azuis e as mãozinhas no ar pedindo colo, você não consegue mais ficar bravo. Alguém assistiu muito Gato de Botas aqui! E de fato a mãe dele nunca deixava ele faltar, pelos motivos mais óbvios. Então, chegou alguém.
   -Oi, gente! Boa tarde! Ivana, como estão as coisas em casa? Eu vi no seu instagram aquela foto em que você... – E segue. E segue. Segue forever!
   Essa era a Rita, alta, magra e morena. Até hoje tenho uma teoria de que ela vinha trabalhar a base de uns três litros de energético. Eu juro que não acreditava em felicidade as segundas feiras ou satisfação com casamento antes dela. Na verdade ainda não acredito muito, por isso a teoria do energético. Mas ela de fato era uma das melhores educadoras ali e uma das pessoas com quem mais tenho aprendido. E por fim, de todas as colegas com quem trabalhava diretamente, a melhor atravessava a porta. Eu costumo dizer que a relação com uma pessoa se desenvolve por etapas, sendo elas “conhecido”, “colega”, “amigo”, “grande amigo”, “melhor amigo” e “parceiro de crime”. E para mim, só faltava confirmar com ela se sabia esconder um corpo! Essa era a Carla, forte como um touro, e de longe a melhor pessoa daquela instituição!
   -Boa tarde, gente!
   Quando chegava ela simplesmente se sentava e olhava com a cara fechada para as crianças que por um acaso estivessem acordadas, mesmo que em silencio. Era um aviso. E depois do aviso vinham às conseqüências, e as crianças sabiam disso desde o começo do ano.
   Olhei no relógio. Era minha hora de acordar as crianças, enquanto Ivana, Rita e Carla ajudavam a arrumar elas, pentear o cabelo das meninas, ajudar as crianças a colocar os sapatos e etc... Tirei os sapatos e subi nos colchonetes. A grande questão para mim nesse momento era que alguns deles simplesmente se recusavam a acordar, e tinha uns que no começo eu me perguntava se não estavam mortos. Quem me assustava no começo era a Diana, três anos, que você não podia encostar e ela já começava a chorar e se debater como se estivesse sendo torturada na Alemanha nazista. E sobre todos esses, eu juro que às vezes tinha vontade de, só para sacanear, ir até o meio dos colchonetes, aproximar as duas mãos da boca e:
   -COOOOOOOOOOOORREE NEGADA! TÁ PEGANDO FOGOO! TÁ PEGANDO FOGOO!
   Mas seria muita maldade, sem mencionar que dois ou três, incluindo a Diana, iam preferir morrer no incêndio. Aí deixava quieto e fazia o trabalho do jeito mais difícil mesmo. O pior era o Carlinhos que além de acordar eu precisava voltar de minuto a minuto no colchonete dele para ver se continuava acordado. Mas eu não o culpo. Se eu tivesse aquele cabeção também pensaria algumas vezes se vale o esforço de levantá-lo. Aliás, a mãe dele realmente era uma guerreira: Deve ter sido realmente difícil por aquela cabeça para fora.
   -Vai! Levanta, carinha! – Eu insistia. – A gente vai tomar café daqui a pouco e brincar depois, e eu sei que você gosta de brincar! – Lhe fazia um carinho no cabelo.
   Verdade seja dita, eu tiro sarro da cabeça dele, mas ele é um dos meus preferidos. Gosto de todos, mas meu santo bateu com o dele. Era uma das crianças que me fazia ficar pensando no filho que terei um dia. Fez um esforço de levantar e foi buscar os tênis, sorrindo. Por sinal, outra coisa que gostava nele. Sorria fácil. Tipo, bem fácil mesmo. Porque não conheceu a vida adulta, é claro, mas ta valendo. Nesse dia, eu tive que acordar ele na mesa do refeitório também. Deu para ver que aquele seria um longo dia.

   Continua...

-----------------------
   Uma coisa que é importante esclarecer. Todos os personagens e situações aqui mencionados não se relacionam diretamente com nada que exista no mundo real, sendo qualquer coisa, mera coincidência. Eu tenho alguns anos de vivência no ambiente de creche entre estágios e trabalhos, e passaram por mim algumas dezenas de pessoas e algumas centenas de crianças. O propósito dessa série é mostrar, de maneira bem humorada, mas realista, o que é o trabalho nesse ambiente e como o profissional de educação, no fim das contas é um ser humano como eu e você, lutando no dia a dia para sobreviver!
.

9 de set de 2019

Pequenos Americanos #06: O novo Hóspede - 3 de 5


   Acabei por fazer naquele dia a última coisa que esperava ter que fazer desde que fui contratado e viajei para assumir como Au Pair: Deixar meus dois host kids sozinhos e sem supervisão em casa. Mas as vezes era necessário, sobretudo naquele momento, de emergência. Estava no consultório de um médico. Um mal encarado na faixa de uns quarenta anos e um dos olhos aparentemente cego.
   -Ele é seu sobrinho?
   -Não, não é, eu o conheci hoje cedo. Sou Au Pair de uma família, e ele estava passando o final de semana conosco. Olha, não dá para explicar muita coisa agora, foi tudo muito rápido. Só sei que se chama Nathan Beauford! E não encontrei nenhum documento nas coisas dele!
   -Ele está bem, está no quarto descansando! Vai precisar ficar aqui em observação!
   -E o que ele tem, doutor?
   Ele se levantou devagar, me deu as costas por um instante fitando a parede. Me levantei e o encarei. Ele então voltou-se novamente para mim.
   -Ele fez ressonância e tirou raio X nas últimas duas horas e também pegamos o histórico médico dele para ter certeza. Por ser um caso de emergência e por ele estar com os batimentos irregulares coloquei ele na frente de outros pacientes nos exames, em  regime de urgência. A mãe dele não falou nada?
   -Ele veio sozinho para casa!
   Ele bateu com a mão na testa, como se a gente tivesse feito uma besteira terrível.
   -O que ele estava fazendo antes de desmaiar?
   -Ele estava brincando com um autorama com o meu menino mais novo! Olha, se isso ajuda, quando ele brinca de autorama ele dá cinqüenta voltas no quarto que nem uma barata mal matada acompanhando o carrinho ou remontando a pista! Nathan deve ter feito o mesmo junto com ele!
   -A mãe dele e a sua patroa foram irresponsáveis de não avisar você sobre isso! Nathan... É um cardiopata congênito!

   * * *
   -Posso entrar?
   -Porque?
   Ollie tinha acabado de abrir a porta. Noah estava sentado, segurando o controle do autorama na mão. O olhar um pouco triste no rosto. Não o desmontou, acreditando que Nathan voltaria logo do hospital comigo, o que não aconteceu. A casa ficou mais vazia depois do que houve. Tudo muito rápido, do nada.
   -Não pode ficar aí nesse quarto para sempre!
   -Você estava no seu até agora!
   -Eu estava, mas não podemos esperar o - Disse meu nome. - chegar! Eu vou ver o que dá para fazer no microondas! E quer saber, o Nathan vai ficar bem! Não tem como eu me livrar dele tão cedo!
   -Porque odeia tanto ele? - Se levantou.
   -Eu não odeio ele... Eu só... Não queria ele aqui com você. Ele não é uma pessoa legal como você pensa. Você acha que todo mundo é bonzinho e ninguém nunca vai te machucar, mas vai! Sempre acontece assim! Vem, vem comer alguma coisa!
   Noah se levantou e se aproximou, como se fosse segui-lo mesmo até a cozinha, mas apenas segurou seu braço.
   -Me conta! O que ele te fez?
   -Quer mesmo saber?
   -Quero!
   -Se eu contar... Você para de falar nisso e vem comer alguma coisa?
   -Tá bom!
   -Então vem, eu te conto na cozinha!

   * * *
   -Você é uma caixinha de surpresas, né? Aquele médico estranho falou sobre você! Porque não me disse quando chegou? Ou melhor, porque não disse para o Noah que não podia ficar correndo pelo quarto nem se forçar demais?
   -Achei... Achei que dava conta.
   -Não é assim que funciona.
   Cardiopatia congênita. Significava que o coração dele não se formou direito quando estava na barriga da mãe dele, em resumo. E portanto, não consegue cumprir a função direito e fica muito mais propenso a arritmias e desmaios e não pode forçar com exercícios físicos. Mas esqueceu de tudo isso enquanto brincava com as pistas enormes de autorama do Noah indo de lá para cá acompanhando os carrinhos com ele. Podia ter sido ainda pior se em vez disso tivesse jogado garrafão do lado de fora.
   -Eu sou o Au Pair do Ollie e do Noah, e nesse fim de semana também sou o seu. - Puxei uma cadeira para perto da cama dele. - Então você tinha que me avisar. É assim que funciona entre mim e os meus meninos, e nunca precisei vir ao hospital com nenhum deles, e se precisar, não vai ser assim de emergência, com esse desespero todo. Porque a gente sempre senta e conversa sobre o que é importante, mesmo que seja difícil. Você pode ter uma coisinha ou duas para aprender com os meninos! - Sorri, sem ter ideia da conversa que acontecia na cozinha naquele momento.

   * * *
   -E foi isso. Ele não cumpriu a promessa. E aquilo era importante para mim. E desde então não falei mais com ele, não quis ir na casa dele, ele não veio mais aqui com a senhora Beauford, enfim... Foi isso.
   -E ele nunca...
   -Francamente, vale a pena ouvir? - Sugou o macarrão instantâneo.
   -Eu não sei. Queria que ele tivesse pensado mais.
   -Ele vai te abandonar também quando tiver chance! Quem sabe... Quem sabe não fingiu que passou mal porque não estava mais aguentando fingir que estava gostando de brincar de autorama com você e quis fugir?
   Noah baixou a cabeça e o silencio pairou. As coisas estavam complicadas. O sol se punha lá fora e eu podia ver pela janela do quarto do hospital. Felizmente, já tinha conseguido ligar para a Christine, que por sua vez já devia ter ligado para a mãe do Nathan e ela já devia estar a caminho do hospital, e assim, eu logo poderia voltar para os meninos. Mas, em um hospital, as horas nunca passam. Mas Nathan pelo menos parecia melhor e já estava bem menos pálido. Mas, o final de semana ainda estava longe de acabar.

   .

6 de set de 2019

Coisas para fazer antes de morrer!


   Faz um frio de se reconsiderar a possibilidade de uma nova era do gelo estar chegando hoje, e estou escrevendo de luvas, o que me faz errar a escrita aqui a torto e a direito, e amaria ter uma lareira em casa para esquentar as coisas. Já tentei colocar um vídeo de fogo crepitando no computador e infelizmente não deu certo. Parece que meu psicológico não é muito bom em aceitar sugestões. Mas, isso me trouxe a ideia de trazer até vocês a minha lista de desejos, de coisas para fazer antes de morrer, então aproveitem as idéias:

   -Ir para a Antártida vestido de pinguim e abraçar um deles!

   -Passar a noite numa daquelas capelas dos ossos batendo papo com os crânios!

   -Cutucar o nariz dos guardas da rainha da Inglaterra! Só de sacanagem!

   -Ir a um casamento, e quando o padre perguntar se alguém se opõe gritar "EEEEEEEUU que não!"
(Mostrei esse post ao Felippe e ele disse que diria: "EU AMO ESSE HOMEEEM! Não, pera, casamento errado!")

   -Deixar um cartão na caixa de correio do Junior (dupla com Sandy) escrito "Meu pinguilim é mais divertido!".

   -E outro na caixa da Sandy escrito "Esse turu turo turo aqui dentro é arritmia cardíaca! Vai no médico!".

   -Ainda nessa linha, descobrir se o fato de Sandy e Júnior serem filhos de Chitãosinho e Xororó faz do "E nessa loucuuuuraaaaa, de dizer que não te queeeeeeeroo" o "I Will Survive" brasileiro!

   -Me vestir de papai noel no natal e dar boletos para as crianças já irem conhecendo a vida.

   -Invadir a área 51 e fazer amizade com os Ets! (No meu caso, já o Felippe quer descobrir se dá para transar com eles! Eu fico mais preocupado é com o que vai nascer disso! rs)

   -Me esconder numa moita e quando alguém chegar, fazer vozinha dizendo: "Busquem... Conhecimento!".

   -Dar uma festa, mas em vez de balões encher camisinhas!

   -Ir ao triangulo das bermudas para ver se tem mesmo bermudas lá!

   -Dizer aos meus pais que tenho algo muito importante para revelar a eles sobre mim e sobre meus sentimentos, que sempre soube que sou diferente e que agora quero me assumir para o mundo, e quando eles começarem a entrar em desespero, eu digo que vou me tornar vegetariano!

   Comentem aí embaixo se vale uma parte 2!
.

2 de set de 2019

Pequenos Americanos #06: O novo Hóspede - 2 de 5


   Deixei o Nathan brincando com o Noah no quarto com o autorama. Sentindo uma certa invejinha, admito. O autorama do Noah era composto de peças de pelo menos uns cinco autoramas diferentes que ele juntou numa pista só, gigante. Marcus não economizava pelo amor dos filhos. Não que fosse exatamente isso que eles queriam.
   Então fui lavar a louça e fazer outras coisas na casa. O programa de Au Pairs já avisava desde a inscrição que entraríamos na divisão de tarefas das famílias que nos contratassem. Apenas ninguém avisou que a divisão seria tão desleal para o nosso lado, mas como já estava acostumado a fazer as coisas além de cuidar das crianças quando trabalha no apartamento cuidando do Pete, então isso era de longe o que menos incomodava. Tive sorte por uma hora ou duas, mas como a ansiedade começasse a atacar enquanto pensava no que aconteceu mais cedo. Felizmente, Sertralina era bem mais barata nos EUA quando eu precisava.
   Mas naquele dia tinha esquecido de tomar, então subi as pressas para o meu quarto com o copo de água na mão, abri a gaveta e tomei. Em seguida, larguei o copo ali mesmo e fui para o quarto do Ollie, de onde não saía há algumas horas. Enquanto isso podia ouvir os risos de Noah, no andar de baixo, dali. Bati na porta.
   -Entre. - Disse, sem vontade.
   Criamos um código alguns dias depois que eu cheguei. Ele não gostava que Noah entrasse em seu quarto e mexesse nas suas coisas. Então, sempre que precisava falar com ele e ele estava recluso ali, eu batia uma vez, depois mais uma, depois três, depois mais uma, então ele sempre sabia quando era eu. Era nosso segredo. Era uma maneira de abrir concessões e ao mesmo tempo ganhar sua confiança. Abri a porta. Entrei e me sentei perto dele, sem dizer mais nada. Estava lendo sobre a cama. Uma revista em quadrinhos qualquer nas mãos.
   -Não vai perguntar?
   -Não! - Sorri.
   Não precisava. O remédio já começava a fazer efeito. Na verdade até um pouco placebo, porque não era tão rápido assim que funcionada, mas, seja como for, eu já estava pensando um pouco melhor. Ele ficou me encarando por alguns instantes.
   -Você... Tá ouvindo?
   -Sim, sua casa tem uma péssima acústica. De madrugada ouço os ratos quando vou na cozinha. É sinistro! - Ri.
   -A gente tem um rato enorme nessa casa agora que está deixando o Noah doente e você deixou ele entrar!
   -Sua mãe deixou, eu sou só um assalariado, cara!
   -Você não vai perguntar mesmo?
   -Não!
   -Não mesmo?
   -Não, cara!
   Mais alguns segundos de silencio. Eu sabia que ele não ia aguentar. Era um adolescente afinal de contas.
   -Ele me enlouquece. Quando a gente era mais novo eu e minha mãe íamos direto na casa da Marie e a gente brincava juntos direto. Mas a gente cresceu e se afastou, e ele ficou um bom tempo sem vir aqui. E quando voltou, ele era assim.
   Então, ficou em silencio olhando para mim por alguns segundos.
   -Não vai perguntar "Assim como?"?
   -Não! - Sorri. - Não vou perguntar nada, você é que tem que dizer se achar que deve! Está caminhando para se tornar um homem, Oliver, e não posso lidar com seus sentimentos por você, apenas aconselhar, mas depende de você querer falar! E então, o que vai fazer?
   -Você perguntou!
   Filho de uma égua, me pegou.
   -Certo, certo, não vou dizer mais nada!
   Então, apenas o trouxe para mim e o abracei brevemente.
   -Você cresceu! Cresceu mesmo! - Suspirei. - Mas e agora?
   -É o Noah. Ele vai fazer a mesma coisa com o Noah. A mesma coisa que fez comigo. Talvez não hoje, não amanhã. Mas logo. Eu sei, você não vai perguntar o que. Acho que é melhor.
   -Se você pode ouvir, sabe que o Noah está se divertindo! Pelo menos fique feliz por ele! - Me levantei.
   Acho que eu conseguiria mais informação sem perguntar nada do próprio Nathan, mas, para isso, teria que tira-lo do Noah. E estava lançado enfim o grande desafio. Enquanto isso, no andar debaixo:
   -Haha, ok, muito legal! Mas eu preciso sair um minutinho para ir ao banheiro!
   -Tá bom! - Sorriu. - Eu vou desmontar enquanto isso e fazer outra pista!
   -É hoje que a gente corre até acabar essas pilhas! - Sorriu.
   Assim, Nathan deixou o quarto. Mas mentiu, pois tomou o corredor para a cozinha. Dez minutos depois, eu o encontraria desmaiado atrás do balcão. E aí sim as coisas iam começar a ficar difíceis.

   Continua...
.

30 de ago de 2019

Ansiedade


   Eu tenho problema de ansiedade. Quero começar com essa frase o primeiro texto sério que escrevo em anos aqui no blog. Porque essa é uma frase que levei muitos anos para conseguir dizer para mim mesmo e para o médico depois.
   Eu não sei lidar com pressão muito bem, nunca soube, sobretudo quando é sua própria cabeça que as cria sem que você tenha alguma condição de controlar muito bem. Minha vida é difícil e lido diariamente com minhas frustrações e tento me entender melhor de todas as formas que posso, seja escrevendo, cantando, fotografando, criando histórias, blogando. Mas as vezes, quando pouca coisa faz você suar e sentir o mundo desmoronando, você precisa de ajuda. Leva tempo, é um processo e se você não tiver amigos para te incentivar a aceitar que tem uma parada errada com você fica tudo mais difícil ainda, e mais fechado e por muito mais tempo você vai ficar.
   Duas coisas me ajudaram. Primeiro, um livro fantástico chamado "Alucinadamente Feliz" de Jenny Lawson. Ele chegou de surpresa para mim sem que eu o escolhesse. Jenny é louca, mas escolheu ser, porque percebeu que era mais fácil lidar com todas as suas dores e problemas de saúde assim. O livro é maravilhoso, Jenny é maravilhosa e o exemplo dela é incrível, e uma das inspirações para esse blog, junto com Luis Fernando Veríssimo e outros escritores. A segunda foi uma amiga que fiz numa das creches em que trabalhei. Outra Jenny Lawson na minha vida. Ela me incentivou a procurar o médico e me deu a primeira cartela de Sertralina, prevendo a receita que o médico me daria no dia seguinte, junto do tratamento com psicólogo.
   Eu só queria fazer uma pausa nos posts mesmo para falar um pouco sobre isso. Por duro que seja admitir que não somos apenas estranhos quando nossa estranheza começa a prejudicar nosso dia a dia de alguma forma, ir ao médico não é o fim. Ir ao psiquiatra não quer dizer que está louco ou tem problemas mentais. E tomar remédios para ficar bem não é o fim. No fim das contas, é o que tem me ajudado as vezes. Ainda mais agora. Bem agora.

Leiam, de verdade. Vai ser o maior favor que fazem as suas mentes,
ansiosas ou não! rs

.

26 de ago de 2019

Pequenos Americanos #06 - O novo Hóspede - 1 de 5


   Já faziam uns bons meses que tinha deixado o Pete e me mudado para os EUA pelo programa de Au Pairs e me tornado babá em Nova York. E minha vida tinha mudado completamente desde então, muito mais do que poderia imaginar.  Mas depois do natal onde reencontrei o Pete, talvez eu tenha ficado um pouco emocional me lembrando daquela época.
   Enquanto isso, Ollie continuava saindo com aquela pessoa, sem dizer nada a nenhum de nós quem era essa pessoa, e ainda me recordava da pessoa que veio buscá-lo para a festa. Alguma coisa não encaixava. O diálogo que vi pela janela naquele dia foi estranho e era difícil dizer se a pessoa que o levou não estava de alguma forma envolvida nisso. Seja como for, a vida seguia.
   -Panquecas?
   Era Christine chegando na cozinha e me vendo fazer o café da manhã dos meninos. Em geral gostava de tentar fazer alguma coisa do Brasil para eles e ir testando para ver o que gostavam. Até então, tinham gostado de arroz e feijão, batata recheada, entre outras coisas. Mas não, naquele dia, para adiantar as coisas, fiz o clássico.
   -Bacon e ovos para o fé hoje, senhora Cooper! É difícil encontrar ingredientes para fazer comidas brasileiras sempre, minhas desculpas!
   -Não se desculpe, não podemos reclamar! Sabe que esse não é seu trabalho, não é? - Debruçou-se na bancada da cozinha.
   -Bem, está pronto! Vou levar os pratos para a mesa! Não pode ficar e tomar café com as crianças? Você é esposa do chefe, devia poder chegar e sair quando quer!
   -Sim, mas... O chefe é meu marido!
   É claro, Marcus não poderia ser menos rígido e exigente na empresa do que era com os filhos e até mesmo comigo em casa.  Não sei porque por um momento imaginei que poderia ser diferente.
   -Só precisava te avisar uma coisa! Hoje você vai cuidar de uma criança a mais! Minha amiga Marie Beauford vai ficar fora com o marido pelo final de semana e ficamos de cuidar do menino dela! Vai gostar do Nathan, ele tem catorze anos agora, mas é bem tranquilo, não deve dar mais trabalho que os meninos, e eu já avisei a Marie sobre você! Não vou mentir, ela estranhou um pouco um au pair homem, mas deu uma chance e ele deve chegar daqui a pouco! Pode fazer mais um prato?
   Torta de climão. Ela me avisa na última hora que vou ter que dar um jeito de adaptar a rotina para receber um terceiro garoto. Que beleza.

   * * *
   -Você deve ser o Nathan, não é? Como...
   Mal consegui terminar de falar após abrir a porta. Noah veio correndo da cozinha ao ouvir o nome dele e abraçou o garoto, como se fosse um chegado que não via a muito tempo.
   -Ei, carinha, como vai? - Sorriu ele, abraçando de volta. Isso para mim era novo. Adolescente que tem paciência com criança.
   Nathan tinha cabelos castanhos e um topete bem feito. Era poucos centímetros mais baixo que Ollie, tinha uma mochila nas costas, uma pequena mala na mão esquerda. Então Noah finalmente o solta.
   -Bem, eu sou... - Lhe disse meu nome. - Au Pair dos meninos, e...
   -Porque não disse que ele ia vir? - Perguntou Noah, me interrompendo de novo. - Ele é a melhor pessoa do mundo!
   -Eu soube uma hora atrás, Noah! Mas ele vai ficar com a gente no final de semana, então...
   -Mesmo? - Vira-se para ele. - Então a gente pode fazer muita coisa! Jogar garrafão, brincar com o autorama, jogar na internet... - E vai uma lista.
   Mas a coisa que realmente me chamou a atenção foi quando Ollie apareceu vindo da cozinha, aparentemente curioso com o barulho. Quando viu Noah quase o abraçando Nathan de novo na porta simplesmente virou as costas, subindo para o quarto.
   -Oi, Ollie! Bom dia! - Nathan ainda insistiu, acenando.
   -Bom dia porque? - Se limitou a dizer, sem olhar para trás, antes de sumir no corredor.
   Naquele momento eu percebi. A gente ia ter um longo fim de semana.

--------------------------------
   *Mas é claro, o retorno dos Pequenos Americanos depois de seis meses de hiato não poderia ser com uma história qualquer! A próxima parte sai em breve, e, se já tiver saído, você confere clicando aqui!
.

23 de ago de 2019

Massageador Corporal Portátil


   Em geral eu nunca fui muito consumista, não que eu tivesse tido educação financeira ou qualquer tipo de coisa parecida, é porque eu sempre fui pobre mesmo. Não dá para ser consumista nas minhas condições, quando você já paga aquilo que realmente precisa chorando. Mas eis que um dia desses eu passei por uma loja e me deparei com uma coisa, pequena e colorida, um massageador corporal que vibra quando pressionado contra o corpo, o que é ótimo para esfregar nas costas no final do dia para aliviar a tensão e o stress. E eu sou desses que quando não pode comprar, fica sonhando:

Sim, eu entrei na loja só para tirar foto com um chapéu que eu
não ia comprar. O que é a mais perfeita definição do pobre
consumista, se pensar bem! Ignorem a etiqueta aparecendo!
E ignorem que eu mirei no capitão do navio e aceitei num
vovô com filtro de jovem do face app também, se puderem!

   Era uma coisinha desgraçada que eu definitivamente não quero, não preciso, me impedi de ir muito fundo na loja para gastar dinheiro com isso (o que não adiantou nada porque comprei um pote de doce mais caro horas depois, um vício) mas agora minhas costas sentem falta. O que é claro que está só na minha cabeça, porque é isso que os anúncios fazem, eles te quebram! E eu já comprei a inutilidade do mês, que foi um ventilador de mesa! E sim, eu sei que é inútil nesses dias frios, mas você não veio nesse blog para me julgar!
   Além disso, como explicaria para minha família que comprei um aparelhinho que vibra e que acredito que vou me sentir melhor usando ele no meu corpo? Mas que minha coluna de setenta anos ia agradecer no final do dia, com certeza ia. Ok, vocês viram? Por um momento eu sucumbi, é o que a propaganda faz! Minha cadeira é um pouco dura, mas não chega a tanto. Pelo menos eu espero que não chegue a tanto! Ah, meu espírito consumista e minha ansiedade me colocaram agora no modo Kid Abelha: "Nada sei dessa vida, vivo sem saber! Nunca soube, nada saberei, vivo sem saber!".

   Ah, f#da-se, amanhã vou comprar esse negócio.

--------------------------------
   Edit: Em geral toda piada tem um fundo de verdade, mas a gente não espera que ele acabe vindo a tona, né?



.

19 de ago de 2019

Porque não faço reuniões de Pauta



   Costumo escrever todos os textos que posto aqui com antecedência de pelo menos uma semana e deixar programado, e não há muito planejamento, escrevo o que estiver afim na hora, e é por isso que a maioria é meio b#sta! Mas de vez em quando comento alguma coisa com um colega meu que acompanha meus trabalhos há alguns anos, e, quando comentei sobre o texto anterior, bem, só leia e conclua, como eu, que se houvesse uma equipe e reuniões de pauta nesse blog, ele seria bem pior e bem mais viajado, e minha família me internaria em um hospital psiquiátrico, o que já não deve estar muito longe de fazer agora!






   Sério, eu realmente cogitei escrever a história, mas o meu gato mandou avisar que não curtiu, que isso é nojento demais e subestima a inteligencia da raça felina e por causa disso, Felippe e eu seremos os primeiros a morrer no Gatageddom! (É sério, ele disse que o nome vai ser esse! Eu tive essa reação também!).

.

16 de ago de 2019

Diálogos com meu gato #04: O Cachorro


   Eu queria poder dizer que consegui fazer o meu gato se dar bem com o meu cachorro! Serio, queria mesmo, mas não posso! Desde que o cachorro chegou que o gato não aparece no quintal e nenhuma das vezes que eu tentei fazer eles se aproximarem deu certo! Não pelo cachorro, porque ele é meio retardado e gosta de todo mundo, mas pelo gato que, talvez algum instinto, não quer nem saber de chegar perto dele!
   E foi numa dessas que ouvi ele miando insistentemente nos fundos da casa, em cima do teto do vizinho.
   -Se quer alguma coisa desce! - Avisei.
   -Não!
   -Porque não?
   -Porque ele está aí!
   -Ele quem?
   -O cachorro!
   -Ele não vai te fazer nada! Além disso ele está preso no quintal, não vai chegar aqui!
   -Não, ele está escondido por aí!
   -Desde ou vai morrer de fome!
   Desceu, com seu rotineiro olhar de puro ódio para mim. Ele podia dizer não em qualquer outra circunstância, mas comida é comida, ainda mais para ele que guardava o instinto dos felinos ancestrais, que morriam, mas garantiam a refeição.
   Me acompanhou até a cozinha, enquanto eu pegava a ração dele no armário. Subiu na mesa.
   -A porta da frente estava aberta! - Resmungou.
   -Vocês deviam ser amigos! Eu sei que você é muito superior a ele em qualquer critério - Por sorte ele não entendia sarcasmo. - Mas ainda assim, vocês moram juntos e eu não vou me livrar dele! Além disso, tem cachorros na rua e você não deixa de ir lá por medo deles!
   -É diferente!
   Coloco a ração no chão para ele, e ele se aproxima e começa a comer com tranqüilidade. Então saio calmamente para o quintal da frente, onde o cachorro me espera com a tradicional cara de bobo dele.
   -Eu tentei conversar com o gato, mas não foi dessa vez ainda! Se contente com a ração!

_______________________
   *E claro, como já postei uma foto do meu gato uma vez, então segue uma do meu cachorro, que eu também não sei a raça, o que torna meu desempenho como dono duvidoso, eu sei disso!



12 de ago de 2019

Coisas que acontecem quando se trabalha em creche!


   Quando eu disse para a minha família que eu pretendia seguir carreira como professor na educação infantil, atuar com crianças e tal, foi quase a mesma pressão que seria me assumir gay se fosse o caso. Meu pai até já não se conformava desde sempre de eu não gostar de consertar carros ou eletrodomésticos e nem ter qualquer interesse nessas coisas que ele tinha e que achava que qualquer moleque deveria ter. Isso aí já foi quase uma traição dos princípios morais da sociedade para ele.
   Quando eu disse que queria ser professor, ainda mais no Brasil onde não se ganha quase nada, e para o meu pai era fundamental trabalhar em algo que dá dinheiro, então? Ele foi pedreiro e hoje trabalha na manutenção de um asilo, só para pontuar. E ainda por cima eu queria trabalhar com criança, sendo que quem cuida de criança é mulher! Tipo, cadê os valores desse mundo?
   Fato é que começar a trabalhar na educação infantil foi uma perda de virgindade, porque quando você vê, se aguentar o tranco e gostar da parada, o trabalho de torna outra pessoa. Na marra. Uma das coisas que mais é exercitada é a paciência. Por exemplo, quando eu chegava na creche as crianças estavam dormindo, e eu era o responsável por acordar todas, em geral para mais de trinta, o mais rápido possível. Só no levanta, abaixa, levanta, abaixa eu já perdia dez quilos todo dia. Mas o mais divertido: Sabe aquela imagem da criança acordando com um sorriso que nem em comercial de margarina? Esquece! As melhores carinhas de "Eu te odeio!" vinham de alguns deles e tinha uma menininha que você não podia encostar que ela começava a chorar como se estivesse sendo espancada! E eu não culpo, até hoje eu tenho vontade de dormir o dia inteiro, mas sou adulto, cadê que o sistema deixa?
   Depois a gente levava eles para o refeitório. E servir criança em refeitório de creche pública é o melhor treino que se pode ter para trabalhar em restaurante porque além de alguns terem pressa, enquanto que no restaurante os adultos ficam berrando para o garçom, se depois de organizar as crianças nas mesinhas bonitinho (onde trabalhei a gente dividia as mesas entre as crianças maiores e menores) a gente demorar dois minutos para começar a levar o lanche, quando você virar para trás vai ter três atrás de você do nada. Tipo jogo de terror mesmo, que você acha que deu perdido no monstro e a hora que vira PÁ!, ele estava lá em cima de você o tempo todo! Sendo que a gente tinha acabado de organizar eles nas mesinhas!
   Aí você serve para todos que querem. E nessa hora costumavam ter sempre dois tipos de criança, sendo eles:
   -A bipolar: Ela aceita o lanche sorrindo, e depois, quando você volta na mesa para perguntar se querem mais, ela nem sequer provou, só empurrou para a frente. Ou o contrário, ela diz que não quer, e dez segundos depois está na barra da nossa calça pedindo!
   -A sommelier de lanche: Ela aceita a comida, depois diz que não tinha visto que era ou tinha isso ou aquilo (Sendo que você mostrou quando perguntou se ela queria!). Eu me recordo de um menino que não gostava que tivesse nada no pão, nem manteiga, doce, geléia, nada, só gostava do pão sem nada. Achei por bem não fazer perguntas. Uma vez servimos bolo de chocolate e uma criança veio atrás de mim para dizer que "tá queimado, tio!". Não estava, o chocolate é que era mais escuro mesmo.
   A caixa de areia é uma armadilha para novatos da pior espécie, porque você acha que vai chegar, vai mandar as crianças para a areia, e vai ficar sentado de boa pela próxima uma hora, mas cara, essa é uma ilusão tão doce quanto achar que nunca vai ser corno. Em toda a minha carreira, depois de me sentar e começar a contar na minha cabeça eu nunca consegui chegar sequer até o três antes de:
   -TIOOOOOOOOOOO!
   E aí levanta para resolver a criança que está chorando, a briga que deve ter acontecido ou a criança que está se matando. Não esqueço de um que uma vez que uma criança fez a proeza de ficar pendurava pela camisa no escorregador e eu tive que correr para salvar. Fora horas que eu passei provando bolos! Tem criança que nunca está satisfeita, quanto mais você prova, mais  bolos eles fazem e te pedem para provar! E nesse levanta, senta, levanta, senta, levanta, senta, no final do dia você já perdeu mais dez quilos. E você nem pode ficar muito parado no mesmo lugar, porque se não eles vão aprontar lá no outro extremo!
   E para encerrar, a hora da saída. Era quando eu me sentia mais útil porque era eu que sempre distribuía biscoitos para as crianças enquanto elas esperavam os pais, ou outro lanche que a gente tivesse para dar a eles. E aí a questão era outra: Conseguir deixar eles sentadinhos nos bancos esperando os pais. E essa na verdade é outra enganação para novatos porque você acha que vai se sentar e ficar de boa, mas vem a vida e dá na sua cara: Eles são crianças, pedir para eles ficarem muito tempo parados é tipo pedir para o Bolsonaro investir em educação: Mais fácil rirem da sua cara, e algumas vão! Fora o cagaço de medo que dava de algum pedir para ir no banheiro, você esquecer dela, ir embora junto com todo mundo e deixar a criança ser trancada na creche até o outro dia! Felizmente, nunca me aconteceu!
   E por fim, você volta para casa com os sapatos cheios de areia, mais cansado que tudo, e naquele meme do Ralph dos Simpsons: Feliz e p#to. Tudo ao mesmo tempo.
   No fim das contas, trabalhar com educação tem um lado bastante sadomasoquista: Se você está lá, não vê a hora de dar o fora e ir para casa. Mas se está em casa descansando, não vê a hora de voltar. Porque no fundo a gente ama isso, e o carinho das crianças paga tudo. Quer dizer, é claro que o sorriso deles nunca vai pagar as contas, mas aquece o coração. E faz a gente voltar se sentindo meio mulher de malandro no dia seguinte, porque, porque a gente se estressa, passa raiva, mas no fundo, quem disse que a gente vive sem eles?
.

9 de ago de 2019

10 coisas que você não quer saber sobre mim



   Então, na mais completa falta de criatividade para bolar qualquer coisa para escrever para o blog (e provavelmente deve ser porque minha cabeça esta confundindo desemprego com férias por estarmos em julho), vou só fazer um teste escrever coisas aleatórias sobre mim que vierem a minha mente só para ver no que dá. Será um daqueles posts de testes de conteúdo, e se der certo a gente continua!

   -Eu diria que a melhor lembrança que tenho sobre conversar sobre sexo com meus pais é o meu pai simulando com uma almofada no meio da sala. Na presença da minha mãe. E ela olhando aquilo como se fosse engraçado. Justo ela que critica minhas séries.

   -Tenho várias recordações de minha mãe conversando com conhecidas e me comparando com os filhos delas. Sendo que a maioria desses garotos era pelo menos cinco anos mais nova que eu. Não sei se isso diz algo sobre mim. Espero que não.

   -Estive pensando que se minha vida virasse um musical, seria repleta de canções tristes e melosas como "You Needed Me" de Anne Murray, "D'ont Cry out Loud" de Melissa Manchester e uma ou outra canção de Pet Shop Boys para dar uma equilibrada. E ia durar três horas, sendo que duas seriam só as músicas. E acabaria sendo um monólogo e só daria para fazer em um palanque pequeno no meio da praça, visto que todo o orçamento já foi gasto nos direitos das canções tristes e melosas e na chuva falsa para emular um clipe triste dos anos 80.

   -Por falar nisso,  gosto de andar de ônibus sentando ao lado da janela e sempre rezo para chover para grudar o rosto no vidro e me imaginar saindo da cidade em um clipe triste da MTV.

   -Quando tinha 15 anos tirei foto para fazer a carteira de trabalho com uma camiseta amarela que tinha na época. Doze anos se passaram desde então. E ela ainda me serve bem. Espero que isso não diga algo ruim a meu respeito.

   -Sempre quis que o padeiro me dissesse que só tem pães dormidos para poder pedir que ele os acordasse. Mais uma oportunidade que a vida me negou!

   -Quando eu era criança, achava que Sandy e Júnior eram filhos de Chitãosinho e Xororó. Tipo, dos dois, um com o outro. Só deixou de fazer sentido depois que eu entendi como o sexo funciona. Mas ainda mantenho a teoria de que o Xororó participou!

   -Se eu postar que eu estou viajando, mas você me ver na rua, para todos os efeitos você também estará viajando! Não complica meu rolê!

   -Do pó viemos, ao pó voltaremos. Só desejo que não me fumem depois.

   -Eu sei que o mundo dá voltas, mas os ônibus dessa cidade, francamente!

   -Aqueles pagodes dos anos 2000 são muito irrealistas, sempre pensei. Na minha vida, todas as vezes que eu deixei acontecer naturalmente, não aconteceu nada. A mina de fé que me largou. Culpa minha, eu me apaixonei pela pessoa errada.  E o fato é que agora eu já não seguro mais nem o Tchan quanto mais essa barra que é gostar de você!


   Digam aí nos comentários se vale sequência!
.