Comédias de Sempre

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1 de abr de 2019

Situações em que não me dei bem com Crianças


   Uma das coisas pelas quais eu sempre fui bastante lembrado foi por ter facilidade inata de me comunicar com crianças e por gostar do contato com elas. Não é mentira e quem acompanha o blog desde o começo e a minha carreira na educação já sabe disso. Mas acho que podemos lembrar aqui que as coisas não dão certo sempre, depende muito do temperamento e da abertura da criança para eu me dar bem com ela, e do pai não ser um pau no c# porque geralmente a criança também vai ser. E nisso, já teve festa que eu passei jogando videogame com os meninos numa máquina de fliperama que tinha lá em vez de conversando e bebendo com os adultos. Mas também, não bebo e nem acompanho futebol, mas amo videogame, a decisão era óbvia.
   Certo dia porém, saindo de casa encontro o filho de uma vizinha que devia ter lá pelos seus nove anos, com o celular que ganhou da mãe. E ele se aproxima e me mostra o jogo que ele estava jogando. Por um acaso era um jogo de soltar pipas. Repito: ERA UM JOGO DE SOLTAR PIPAS!
   -Deixa eu ver se eu entendi, fulano! - Eu disse. - Você poderia pegar uma moeda com a sua mãe, ir lá na venda e comprar uma pipa para soltar com os outros garotos que estão sempre soltando no bairro, e em vez disso prefere jogar um joguinho porque é fracassado demais para fazer isso, não é?
   -Anh... É. - Respondeu, com uma carinha de auto-decepção.
   Sim, eu chamei um garoto de nove anos de fracassado, mas, em minha defesa, eu jogo GTA justamente porque eu seria fracassado demais para roubar carros, bater em pessoas na rua e fugir da polícia! Eu jogo games de tiro porque eu sou muito fracassado para usar uma arma na vida real e se eu tentasse acabaria dando um tiro no meu próprio pé antes de sequer conseguir dar um tiro para frente! Eu jogo Mario porque eu seria muito fracassado em ser um encanador! Eu jogo Sonic porque eu seria muito fracassado em ser um ouriço! Isso porque ESSA É A FUNÇÃO DOS VIDEOGAMES: Nos iludir de que a gente pode ser bom em tudo aquilo que no fundo a gente sabe que não pode! Alguém já viu o CR7 jogando FIFA? Ou o Dráuzio Varella jogando Surgeon Simulator? Bem, eu não posso reclamar de esse garoto nunca mais ter olhado na minha cara! Mas, uma vez teve um revés:
   Uma vez dois garotos fizeram uma maldade muito grande comigo: Eu fazia estágio em uma instituição de educação uns anos atrás e, como tinha aula na faculdade a tarde, para não precisar parar em casa para almoçar, costumava comer junto com as crianças, o que era bom porque me dava tempo para conversar e socializar com elas e sempre me sentava na mesa que havia uma cadeira sobrando. Numa dessas me peguei sentado com dois meninos. Aí um deles solta:
   -Tio, aquela hora você estava andando por aí e metade da sua bunda estava aparecendo!
   Gelei. Senti o meu coração quase enfartar. Se eu tivesse algum problema de coração aqueles moleques seriam os mais jovens assassinos do interior. A primeira coisa que fiquei imaginando foi que, se aquilo fosse verdade e minha calça realmente estivesse frouxa, o que eu tinha a mais absoluta certeza de que não estava, o mal entendido que aquilo podia gerar. Na minha cabeça já podia ouvir a diretora me chamando na sala dela e questionando com o olhar acusador: "Alguém me disse que você andou exibindo suas partes para as crianças! Quero explicações agora!".
   -F-fulaninho, i-isso é verdade? - Gaguejei. - Você está falando a verdade para o tio?
   -É, é verdade! - Disse o outro.
   Cara, eu estava chorando muito por dentro e quase começando por fora enquanto os dois pareciam se divertir com a minha reação, e eu mal conseguia olhar na cara deles. O f#da é que eu amava aquele lugar e o trabalho que fazia lá. Até que algo os ilumina e os faz ter misericórdia de mim.
   -É mentira, tio! É brincadeira! - Disseram os dois, rindo.
   -M-mentira?
   -É, é brincadeira!
   Eu nunca achei na minha vida que chegaria o momento em que eu ia querer bater tanto numa criança como eu quis naquela hora. As calças que eu usava naquela época no final do dia deixavam minha cintura até marcada, simplesmente não tinha como aquilo acontecer, a não ser na imaginação fértil daqueles dois pequenos filhos de uma boa mãe. A sorte deles é que apesar da vontade de cometer um assassinato no estilo Jason Vorhees que eu fiquei ali na hora eu nunca contei nada a professora deles. Não sei exatamente porque não contei. Talvez porque no fundo soubesse que eles não tinham como saber o quanto essa brincadeira tinha tudo para soar errada.
   E é isso. Essa é a história de como eu sofri um bullying psicológico pesado de dois garotos de seis anos. Acho que eu ter chamado o garoto de fracassado já está pago! Rs Pelo menos eu espero!

   Detalhe só para quem lê as notas de rodapé: Foram justamente esses dois garotos que inspiraram o Pete, cujas histórias vocês também lêem aqui no blog!
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