Comédias de Sempre

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12 de ago de 2019

Coisas que acontecem quando se trabalha em creche!


   Quando eu disse para a minha família que eu pretendia seguir carreira como professor na educação infantil, atuar com crianças e tal, foi quase a mesma pressão que seria me assumir gay se fosse o caso. Meu pai até já não se conformava desde sempre de eu não gostar de consertar carros ou eletrodomésticos e nem ter qualquer interesse nessas coisas que ele tinha e que achava que qualquer moleque deveria ter. Isso aí já foi quase uma traição dos princípios morais da sociedade para ele.
   Quando eu disse que queria ser professor, ainda mais no Brasil onde não se ganha quase nada, e para o meu pai era fundamental trabalhar em algo que dá dinheiro, então? Ele foi pedreiro e hoje trabalha na manutenção de um asilo, só para pontuar. E ainda por cima eu queria trabalhar com criança, sendo que quem cuida de criança é mulher! Tipo, cadê os valores desse mundo?
   Fato é que começar a trabalhar na educação infantil foi uma perda de virgindade, porque quando você vê, se aguentar o tranco e gostar da parada, o trabalho de torna outra pessoa. Na marra. Uma das coisas que mais é exercitada é a paciência. Por exemplo, quando eu chegava na creche as crianças estavam dormindo, e eu era o responsável por acordar todas, em geral para mais de trinta, o mais rápido possível. Só no levanta, abaixa, levanta, abaixa eu já perdia dez quilos todo dia. Mas o mais divertido: Sabe aquela imagem da criança acordando com um sorriso que nem em comercial de margarina? Esquece! As melhores carinhas de "Eu te odeio!" vinham de alguns deles e tinha uma menininha que você não podia encostar que ela começava a chorar como se estivesse sendo espancada! E eu não culpo, até hoje eu tenho vontade de dormir o dia inteiro, mas sou adulto, cadê que o sistema deixa?
   Depois a gente levava eles para o refeitório. E servir criança em refeitório de creche pública é o melhor treino que se pode ter para trabalhar em restaurante porque além de alguns terem pressa, enquanto que no restaurante os adultos ficam berrando para o garçom, se depois de organizar as crianças nas mesinhas bonitinho (onde trabalhei a gente dividia as mesas entre as crianças maiores e menores) a gente demorar dois minutos para começar a levar o lanche, quando você virar para trás vai ter três atrás de você do nada. Tipo jogo de terror mesmo, que você acha que deu perdido no monstro e a hora que vira PÁ!, ele estava lá em cima de você o tempo todo! Sendo que a gente tinha acabado de organizar eles nas mesinhas!
   Aí você serve para todos que querem. E nessa hora costumavam ter sempre dois tipos de criança, sendo eles:
   -A bipolar: Ela aceita o lanche sorrindo, e depois, quando você volta na mesa para perguntar se querem mais, ela nem sequer provou, só empurrou para a frente. Ou o contrário, ela diz que não quer, e dez segundos depois está na barra da nossa calça pedindo!
   -A sommelier de lanche: Ela aceita a comida, depois diz que não tinha visto que era ou tinha isso ou aquilo (Sendo que você mostrou quando perguntou se ela queria!). Eu me recordo de um menino que não gostava que tivesse nada no pão, nem manteiga, doce, geléia, nada, só gostava do pão sem nada. Achei por bem não fazer perguntas. Uma vez servimos bolo de chocolate e uma criança veio atrás de mim para dizer que "tá queimado, tio!". Não estava, o chocolate é que era mais escuro mesmo.
   A caixa de areia é uma armadilha para novatos da pior espécie, porque você acha que vai chegar, vai mandar as crianças para a areia, e vai ficar sentado de boa pela próxima uma hora, mas cara, essa é uma ilusão tão doce quanto achar que nunca vai ser corno. Em toda a minha carreira, depois de me sentar e começar a contar na minha cabeça eu nunca consegui chegar sequer até o três antes de:
   -TIOOOOOOOOOOO!
   E aí levanta para resolver a criança que está chorando, a briga que deve ter acontecido ou a criança que está se matando. Não esqueço de um que uma vez que uma criança fez a proeza de ficar pendurava pela camisa no escorregador e eu tive que correr para salvar. Fora horas que eu passei provando bolos! Tem criança que nunca está satisfeita, quanto mais você prova, mais  bolos eles fazem e te pedem para provar! E nesse levanta, senta, levanta, senta, levanta, senta, no final do dia você já perdeu mais dez quilos. E você nem pode ficar muito parado no mesmo lugar, porque se não eles vão aprontar lá no outro extremo!
   E para encerrar, a hora da saída. Era quando eu me sentia mais útil porque era eu que sempre distribuía biscoitos para as crianças enquanto elas esperavam os pais, ou outro lanche que a gente tivesse para dar a eles. E aí a questão era outra: Conseguir deixar eles sentadinhos nos bancos esperando os pais. E essa na verdade é outra enganação para novatos porque você acha que vai se sentar e ficar de boa, mas vem a vida e dá na sua cara: Eles são crianças, pedir para eles ficarem muito tempo parados é tipo pedir para o Bolsonaro investir em educação: Mais fácil rirem da sua cara, e algumas vão! Fora o cagaço de medo que dava de algum pedir para ir no banheiro, você esquecer dela, ir embora junto com todo mundo e deixar a criança ser trancada na creche até o outro dia! Felizmente, nunca me aconteceu!
   E por fim, você volta para casa com os sapatos cheios de areia, mais cansado que tudo, e naquele meme do Ralph dos Simpsons: Feliz e p#to. Tudo ao mesmo tempo.
   No fim das contas, trabalhar com educação tem um lado bastante sadomasoquista: Se você está lá, não vê a hora de dar o fora e ir para casa. Mas se está em casa descansando, não vê a hora de voltar. Porque no fundo a gente ama isso, e o carinho das crianças paga tudo. Quer dizer, é claro que o sorriso deles nunca vai pagar as contas, mas aquece o coração. E faz a gente voltar se sentindo meio mulher de malandro no dia seguinte, porque, porque a gente se estressa, passa raiva, mas no fundo, quem disse que a gente vive sem eles?
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