Comédias de Sempre

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23 de set de 2019

Pequenos Americanos #06: O novo Hóspede - Final


   Voltamos para casa uma hora depois. Paguei um uber. Só no caminho me dei conta de que Marcus ficaria uma fera quando soubesse. Isso porque não existe saúde pública nos Estados Unidos. Aqui mesmo em atendimentos de emergência como foi o de Nathan havia cobrança de serviços hospitalares, e uma gorda fatura chegaria em nossa casa em breve. E com certeza mais do que eu poderia assumir pagar, mesmo que fosse minha obrigação. Como Nathan era hóspede, a boa educação mandava que Marcus pagasse a conta. Mas isso não era a maior preocupação agora.
   Entramos na casa com minha cópia da chave. Não era estranho para mim que os meninos estivessem sozinhos sem mim. Era o que Marcus obrigaria Christine a fazer nessa situação. Então, pela hora, tinha de ver se os meninos não estavam com fome.
   -Vai lá falar com o Oliver, eu vou ver como o Noah está, tá bom?
   -Tá!

   * * *
   -Quando Nathan era pequeno eu sofri bastante com tudo isso, sabe?
   Foi o que ouvi da Marie, mãe dele, quando me telefonou de manhã, antes de ele acordar, para agradecer por eu ter aceitado ficar com ele e levado ele para a minha casa depois.  Ela começou  contar toda a história. Eu estava certo. No começo, Nathan tinha de ir para o hospital por conta de desmaios toda semana quando começou a andar. E isso a obrigou a fazer a pior coisa que se pode fazer a uma criança, que é restringir seus movimentos, impedi-la de fazer todas as coisas que outras crianças faziam, correr, subir em árvores, tudo, e tinha até um tutor particular. Numa escola, ninguém o impediria de correr nos intervalos. Ela exagerou bastante nos primeiros anos, impedindo-o de fazer quase tudo, sobretudo sem sua presença. Foi Christine, quando se conheceram, que a ajudou a pegar mais leve com o garoto e ganhar força de encarar os riscos. A possibilidade de desmaio não podia ser um fator aqui. Por mais que numa dessas ele pudesse morrer, para que é que estava vivendo se não podia ter momentos felizes, e sobretudo, ainda pequeno, se não podia brincar e ser criança? E foi nessa época que se conheceram, Nathan e Ollie. Mesma idade, sonhos e idéias parecidos. Ollie fez uma coisa muito bonita nessa época, mesmo que, criança, não soubesse o tamanho da bondade que isso significava: Ele reduziu o próprio ritmo. E como Marie e Christine se visitavam sempre aos finais de semana, então se viam sempre, apesar de cada um morar de um lado da cidade. Cresceram juntos e com Marie mais tranqüila por Ollie não oferecer nenhum risco muito grande ao Nathan como outras crianças, mas aí, lá pelos catorze anos, uma coisa aconteceu. Christine deixou de levar Ollie com ela quando a visitava de repente, mantendo Nathan sozinho no quarto.
   -E porque ela fez isso?
   -Dizia que Oliver não queria ir. Acho que era porque estava crescendo e tinha outras prioridades na vida. Acho que uma hora sempre acontece entre amigos. Não, não estou sendo sincera, quer dizer, não estou dizendo tudo. Teve um dia em que Nathan voltou a desmaiar depois de muitos meses. Fiquei aflita e não entendi. E quando Oliver apareceu no dia seguinte na nossa porta, dessa vez vindo sozinho, eu surtei, gritei com ele, e disse que era culpa dele. Que nós confiamos e ele estava fazendo o meu Nate se esforçar demais de novo. Eu não me orgulho, mas entenda, cada desmaio, se não tiver atendimento rápido, pode significar a morte dele! O coração dele é fraco e chegou a parar por muito tempo nesse dia, mas por sorte os médicos conseguiram recuperar antes que morresse, mas eu fiquei assustadíssima. Eu estou sempre assustadíssima. E isso me faz uma louca superprotetora? Quem eu quero enganar? É claro que sim. Mas até que eu visse... Até que eu me desse conta já estava feito.
   E assim, tudo estava explicado. Era um tremendo mal entendido.

   * * *
   -Então foi isso? Nós ficamos brigados todo esse tempo por causa da sua mãe? Porque ela fez parecer que você disse que foi minha culpa você ter desmaiado naquele dia? - Disse Ollie, com desconfiança.
   Ambos no quarto, finalmente conversando sobre as coisas que tinham acontecido no passado. E Nathan finalmente contando a verdade sobre o mal entendido que sua mãe causou quando ele quase morreu naquele hospital.
   -Eu devia ter dito isso antes. Mas eu levei tempo até me recuperar, e quando vi, você já tinha desaparecido!
   -Você sabe onde eu moro! - Lhe deu as costas.
   -Dois anos se passaram e quando eu cheguei ontem você me deu as costas, porque teria me ouvido uma semana depois? Olha, não foi sua culpa, não é culpa de ninguém eu ter esse problema e ter que tomar os remédios que eu tomo! Mas não aja como se o fardo maior fosse seu nessa história!
   -Você quer o que? Que eu peça desculpas?
   -Não! Eu te devo desculpas! - Tocou seu ombro. - Você está certo, eu devia ter tentado falar com você! Minha mãe não tinha o direito de fazer aquilo, mas...
   -Eu não sou mais o mesmo, Nate! - Eu cresci, eu estou pensando no meu futuro. E inclusive eu tenho uma pessoa que amo! Se quiser voltar a amizade vai ter que aceitar isso: Aquele cara que brincava com você de jogos de tabuleiro ou qualquer coisa que você não tivesse que ficar correndo todo final de semana para você não se sentir sozinho... Ele morreu. O que existe aqui sou eu agora. - Estendeu a mão. - Amigos então?
   Oliver é quem tinha oferecido a ele a única forma de infância que ele conheceu. Pelo menos aquele Oliver que supostamente havia morrido. Mas, depois de dois anos, Nathan também não era mais o mesmo, não podia julgar como se as coisas tivessem mudado somente para ele. Então, em vez disso o abraçou rapidamente.
   -Então, anh...
   -Nate, eu sou o olho no céu! Lembra disso? Eu posso ler sua mente, lidando como com um tolo!
   -A bandinha! - Sorriu de canto de boca, recordando as brincadeiras de banda na garagem quando tinham ali pelos doze anos, na casa de Nathan. - Entendi!
   Achei que aquele era o momento de me retirar antes que me percebessem ali. E se eu tinha entendido bem, eu fui o olho no céu dos dois dessa vez. Acho que tudo estava acabando bem afinal. Desci as escadas lá para baixo. No chão da sala, Noah ainda esperava em silencio com o autorama. Ao me ver, ajeitou os óculos.
   -O Nathan... Tá bem?
   Não sabia ao certo em qual sentido ele havia perguntado, mas, não importava, porque a resposta afinal era a mesma.
   -Vai ficar! - Sorri. - Depois de tudo... Ele sempre fica! Assim como todos nós!
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